IN  MEMORIAM
Maria Ondina Braga
(1932- 2003)

 

Maria Ondina Braga  nasceu em Braga, a 13 de Janeiro de 1932, "onde concluiu os estudos liceais"."Começou pela poesia, tendo publicado dois livros de poemas, e escreveu crónicas de carácter social para jornais da sua cidade. Daí partiu para Inglaterra e depois para França, sempre estudando e trabalhando. Como docente, ensinou inglês e português em Angola, em Goa (onde assistiu à ocupação pelas tropas indianas) e também em Macau, entre 1959 e 1965" (DN). Herdeira de «uma poderosa tradição clássica", mas aqui e ali "sobressaltada por um especial instinto de renovação», Maria Ondina Braga "combina" com extrema sensibilidade a " memória, conto, novela, romance e crónica", tendo sido tradutora de "autores como Graham Greene, Bertrand Russel, John Le Carré, Herbert Marcuse, Anaïs Nin e Tzvetan Todorov." " Depois de ter vivido grande parte do seu tempo em Lisboa - onde colaborou também com jornais e revistas como o "Diário Popular", "A Capital" e "Colóquio/Letras" -, Maria Ondina Braga recolhera-se, nos últimos anos, na sua terra natal (onde a Câmara Municipal a homenageou em 1990, e lhe atribuiu a Medalha de Ouro da cidade, em 1994). [Mil Folhas, Sérgio Andrade].

 

"Maria Ondina Braga desenvolveu uma escrita feita de textos de carácter intimista, marcada por temas como a solidão, a melancolia, a consciência da morte. «Não tenho aspirações, estou muito virada para a morte. Sou melancólica. Talvez seja essa melancolia que traga a presença da morte. Não tenho apego à vida, nunca tive», costumava dizer. Viveu solitariamente. «Sozinha com a escrita. A escrita é a única coisa que tenho na vida. Digamos que é uma fatalidade»". [Diário Notícias]

 

- "E a escritora menina e descobridora fala da sua alma: a que pertencia ao mundo calado do alheamento e da solidão. Esta, a menina de Braga, que salta da Escócia à China e volta - sempre só a estar bem onde não está, ou a estar bem em todos os sítios a um tempo - que volta aos vivos e aos defuntos; às infantilidades e à trança de menina: a menina parecida com o Outono, que ao Outono se compara". [Tomaz de Figueiredo]

 

- "Às tardes, de volta das aulas, neste meu estreito quarto atravancado de livros, olho em redor as paredes brancas, onde se destaca o colorido de uma ventarola chinesa, e depois o meu próprio rosto no espelho. Então, como a madrasta da Branca de Neve diante do cristal mágico, pergunto: «Haverá alguém mais triste do que eu?»" [Maria Ondina Braga - Estátua de Sal]

 

- "E teimo na minha terra: as ruas de Braga, cada esquina, cada pedra, quase. Um a um, vou transportando os passeios estreitos das ruas velhas, tortas, a brancura das avenidas, as lojas, as igrejas, os largos. Ando por lá peregrinando." [idem, ibidem]

 

 

Bibliografia

- Eu Vim para Ver a Terra (1965) - Crónicas
- A China Fica ao Lado (1968) - Contos [Prémio do concurso de Manuscritos do SNI em 1966]
- Estátua de Sal  (1969) - Romance
- Amor e Morte (1970) - Contos [Prémio Ricardo Malheiros]
- Os Rostos de Jano (1973) - Novelas 
- A Revolta das Palavras (1975) - Contos
- A Personagem (1978) - Romance
- Mulheres Escritoras  (1980)
- Estação Morta (1980) - Contos
- O Homem da Ilha e Outros Contos (1982)
- A Rosa de Jericó (1982), 
- A Casa Suspensa (1983)
- Lua de Sangue (1986), 
- Memórias e mais dizeres (1988)
- Nocturno em Macau (1991) - Romance  [Prémio Eça de Queirós]
- Passagem do Cabo (1994) 
- A Filha do Juramento (1995)
- Vidas Vencidas (1998) [Grande Prémio de Literatura ITF 2000]

 
 

                                                             

 

"Incapaz de escrever uma linha, hoje. Dói-me a alma, e o pensamento é um navio perdido em mar de bruma. Incapaz de me nortear, de sequer me aguentar, erecta, neste chão donde brotei como uma árvore. O que é que tenho? Quem é que me fez mal?." [in, A Personagem]

"Partir é bom, mas, pensar em partir, melhor ainda. Quanto a mim, acho que tenho sempre chegado. Partir é esperança. Chegar, desencanto." [in, Estátua de Sal]

 

 

  

 

 

 
     

©2003  Bibliomanias/In Memoriam Maria Ondina Braga