IN  MEMORIAM
João César Monteiro
(2/02/1939- 3/02/2003)

 

O Génio Absolutamente Liberto 

João César Monteiro nasceu na Figueira da Foz, a 2 de Fevereiro de 1939, "no seio de uma família fortemente dominada pelo espirito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República" (in A Minha Certidão). De infância "caprichosa e bem nutrida" (idem), estreou-se no cinema em 1968 com uma curta-metragem documentário sobre a poetisa Sophia de Mello Breyner Andersen. Cedo se desvela  o prazer de uma estética poética e literária libertária e surrealizante, de intensa luminosidade, que sempre o acompanhou ao longo da vida. E que retrata o génio absolutamente liberto que era.

 

 

- "Son cinéma est fluide, admirablement cadré, lent comme la mer de paille, typiquement lusophone en confrontant les légendes, les voix célestes, le décalage surréaliste. Impudique ou exhibitionniste, son cinéma, son personnage, lui-même laissent tomber chacune de ses inhibitions, quitte à choquer, à nous entraîner dans le désanchantement d'un fado, mais surtout il nous fait mémoriser chacune de ses images, chacune de ses créations. Il y a quelque chose de mélancolique au royaume de Monteiro". [Serge]

 

- "Será necessário acrescentar que um texto de Ponge ou de Joyce, um excerto de Mozart, uma careta de criança, uma sombra na parede, um grito de actor, um pedaço de noite, uma barata no copo, um fotograma negro, um raccord imperfeito, um discurso improvisado no terreno do touro são no César elementos insubstituíveis de uma poética tão minuciosamente elaborada que só a mise-en-pratique ideológica, a integração visceral, a obcessiva experimentação alquímica dos materiais (estéticos) podem determinar?" [Vitor Silva Tavares - prefácio a Morituri Te Salutant, & ETC, 1974)

 

- "Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição seram infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte." [J. César Monteiro - in Morituri Te Salutant, ibidem]

 

- "O cinema não tem consolo. Porque é película, e a película nem sequer é tão saborosa como um gelado. É uma matéria físico-química, mais salgada do lado da emulsão porque tem ácidos - isto quando se põe a língua. Não sei se dá saúde. Mas não traz felicidade. E ainda por cima nesta idade já não excita muito o egozinho. O que é que eu gostava de ser? Gostava de não ser cineasta, não ser artista, ser gente simples, passando despercebidamente pelo grande magma social. Isto pressupõe uma certa inveja: não é a inveja de não ser um grande cineasta como o Murnau, é a inveja de não ser afável e simpático como o marido da minha porteira. Não consigo ser. Porque mexo em coisas que têm a ver com a criação, com a arte." [J. César Monteiro ao jornal Público, 1995]

 

- "Perguntam-me o que é que eu fazia na vida e, quando lhes disse que era cineasta, olharam-me cheios de desconfiança. Se calhar - ocorre-me agora - deveria ter apenas respondido que faço filmes. Realmente, assim não se pode conversar. Se me perguntam o que faço, porque raio hei-de responder o que sou?"       [J. César Monteiro - in Morituri Te Salutant, ibidem]

 

- "Não faço parte de grupos e não tenho quaisquer afinidades culturais com colegas meus. Sinto-me, portanto, à margem daquilo a que se chama o novo cinema português (...). sou um tipo ferozmente individualista que a si mesmo se toma pelo centro do mundo e está profundamente convencido que estas coisas de cinema, ou do que quer que seja, se atravessam sozinho." [J. César Monteiro - in Morituri Te Salutant, ibidem]

 

 

Filmografia

- Sophia de Mello Breyner Andresen (1968) - Curta Metragem
- Quem Espera Por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970)
- Fragmentos de um Filme-Esmola: A Sagrada Família (1972)
- Amor de Mãe (1975)
- Que Farei com Esta Espada? (1975)
- Veredas (1978)
- O Amor das Três Romãs (1979)
- Os Dois Soldados (1979)
- O Rico e o Pobre (1979)
- Silvestre (1982)
- À Flor do Mar (1986)
- Recordações da Casa Amarela (1989)
- O Último Mergulho (1992)
- O Bestiário (1995) - Curta Metragem
- A Comédia de Deus (1995)
- Lettera Amorosa (1995) - Curta Metragem
- Passeio com Johnny Guitar (1995) - Curta Metragem
- Le Bassin de John Wayne (1997)
- As Bodas de Deus (1999) 
- Branca de Neve (2000)
- Vai e Vem (2003) 

Livros

- Morituri Te Salutant (1974, & ETC) - Textos publicados na & ETC, Tempo e Modo, Diário de Lisboa
- Uma Semana Noutra Cidade (2000, & ETC)

 
 

                                                             

 

"O amor é uma coisa bastante embaraçosa. Pelo menos da forma como eu o entendo: como algo de absoluto. As coisas que aprendemos na vida podiam levar-nos a relativizar o amor. Isso se eu tivesse algum bom senso na cabeça. Não é o caso. Há uma teimosia em entender o amor como coisa absoluta. Sendo absoluta, não é possível. Ficamos com a ideia."

"A morte é silenciosa. Não tenho nada a dizer sobre a morte"

 

 

  

 

 

 
     

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