IN  MEMORIAM
ÁLVARO GUERRA
(1936-2002)

 

(...) Inserindo-se na geração dos ficcionistas revelados na década de 60 para a de 70, o autor de Os Mastins (1967) - o seu primeiro romance, alegórico na abordagem da situação histórico-social da época salazarista, e prefaciado por Alves Redol - assentou grande parte da sua escrita na consciencialização de que o passado dialoga com um futuro histórico. 

Não terá sido por acaso que citava amiúde Camus, como escritor do absurdo, perante as incongruências e violências da História. O primeiro livro, Álvaro Gurra, escreveu-o no mato da Guiné. Seguem-se Disfarce (1969), esse sim uma denúncia da guerra colonial e uma obra de confronto com a morte, e A Lebre (1970). Mas será na década de 80, já após a publicação da colectânea de contos Memória (1971), e Capitão Nemo e Eu (1973), que o escritor passará a integrar processos mais tradicionais na ficção, nomeadamente no plano do folhetim romanesco, de tendência autocrítica, notória na trilogia Café República (1982), Café Central (1984) e Café 25 de Abril (1984). 

A primeira parte da trilogia desenrola-se no período que vai desde 1914 até ao final da II Guerra Mundial; a segunda decorre até às vésperas do 25 de Abril e a terceira aborda o desencanto pós-revolucionário. Nestas obras cruzam-se a análise de mentalidades no Estado Novo, temas como a decadência do Império, a euforia da liberdade conquistada em 1974 e as desilusões que se lhe seguiram. Entre outros dos seus romances, Crimes Imperfeitos (1990), Razões do Coração (1991), A Guerra Civil (1993) e Esboços para Uma Tauromaquia (1994). Com Crónicas Jugoslavas conquistou o Grande Prémio da Crónica da APE. A D. Quixote publicará, em Maio, No Jardim das Paixões Extintas

E se a ficção (a escrita, o seu "toiro de papel") sofreu sempre uma contaminação do romance histórico, há, de alguma forma, uma transposição para a palavra de uma experiência pessoal no jogo da reelaboração dos processos individuais e de uma memória dilacerada na sua dimensão plural. Oficial miliciano na Guiné-Bissau, de 1961 a 1963, ficando ferido, rumou a Paris para se especializar em publicidade e media, ramo no qual trabalhou até 1969. Colaborou com o movimento dos capitães, depois de ser perseguido pela PIDE e de ter estado exilado em França.

Como diplomata, foi embaixador na Suécia, na Jugoslávia, Zaire, Índia e Estrasburgo. Álvaro Guerra foi director de Informação da RTP após o 25 de Abril, trabalhou nos jornais República e Luta - que ajudou a fundar -, e chegou a colaborar no DN. Exerceu ainda as funções de assessor do presidente Ramalho Eanes. 

[Texto de Ana Marques Gastão, in DN,  19/04/2002]

antimemória

Viemos do mundo para o mundo
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos

[in, Memória, 1971]

 
 

                                                             

"um corpo é outro corpo à procura ou encontrado e o tecido vivo assim tecido é um lugar no meio do vento um sol cá dentro "

"e nunca digas que me conheceste, pois eu fui, durante o longo equívoco, aquilo que mereceste e nunca um homem está tão sózinho que a sua solidão o imunize dos venenos da razão dos outros"

 

  

 

 

 
     

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