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(...) Inserindo-se na geração dos ficcionistas revelados na década
de 60 para a de 70, o autor de Os Mastins (1967) - o seu
primeiro romance, alegórico na abordagem da situação histórico-social
da época salazarista, e prefaciado por Alves Redol - assentou
grande parte da sua escrita na consciencialização de que o
passado dialoga com um futuro histórico.
Não terá sido por acaso que citava amiúde Camus, como
escritor do absurdo, perante as incongruências e violências da
História. O primeiro livro, Álvaro Gurra, escreveu-o no mato da
Guiné. Seguem-se Disfarce (1969), esse sim uma denúncia
da guerra colonial e uma obra de confronto com a morte, e A
Lebre (1970). Mas será na década de 80, já após a publicação
da colectânea de contos Memória (1971), e Capitão
Nemo e Eu (1973), que o escritor passará a integrar processos
mais tradicionais na ficção, nomeadamente no plano do folhetim
romanesco, de tendência autocrítica, notória na trilogia Café
República (1982), Café Central (1984) e
Café 25
de Abril (1984).
A primeira parte da trilogia desenrola-se no período que vai
desde 1914 até ao final da II Guerra Mundial; a segunda decorre
até às vésperas do 25 de Abril e a terceira aborda o desencanto
pós-revolucionário. Nestas obras cruzam-se a análise de
mentalidades no Estado Novo, temas como a decadência do Império,
a euforia da liberdade conquistada em 1974 e as desilusões que se
lhe seguiram. Entre outros dos seus romances, Crimes
Imperfeitos (1990), Razões do Coração (1991), A
Guerra Civil (1993) e Esboços para Uma Tauromaquia
(1994). Com Crónicas Jugoslavas conquistou o Grande Prémio
da Crónica da APE. A D. Quixote publicará, em Maio, No Jardim
das Paixões Extintas
E se a ficção (a escrita, o seu "toiro de papel")
sofreu sempre uma contaminação do romance histórico, há, de
alguma forma, uma transposição para a palavra de uma experiência
pessoal no jogo da reelaboração dos processos individuais e de
uma memória dilacerada na sua dimensão plural. Oficial miliciano
na Guiné-Bissau, de 1961 a 1963, ficando ferido, rumou a Paris
para se especializar em publicidade e media, ramo no qual
trabalhou até 1969. Colaborou com o movimento dos capitães,
depois de ser perseguido pela PIDE e de ter estado exilado em França.
Como diplomata, foi embaixador na Suécia, na Jugoslávia, Zaire,
Índia e Estrasburgo. Álvaro Guerra foi director de Informação
da RTP após o 25 de Abril, trabalhou nos jornais República
e Luta - que ajudou a fundar -, e chegou a colaborar no DN.
Exerceu ainda as funções de assessor do presidente Ramalho Eanes.
[Texto de
Ana Marques Gastão, in DN, 19/04/2002]
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