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Bibliofilia

Arte e ciência de quem ama os livros, particularmente as obras raras e preciosas. O atrativo bibliográfico de uma obra repousa sobre um certo numero de critérios. Alguns livros podem ter valor porque foram impressos em número limitado ou porque foram compostos a mão, feitos com um papel de boa qualidade, ou por causa de processos de reprodução ou de encadernação excepcionais.

Os livros mais desejados são as primeiras edições (dos quais o número de cópias impressas são geralmente pouco elevado) das obras de um escritor conhecido. Os incunábulos e os livros de meados do século XV ao término do século XVII, foram publicados em número relativamente restrito. Os exemplares que chegaram até nós são preciosos. Os livros raros que têm seu valor por negligência de impressão ou encadernação (cobertura defeituosa, página de título faltando, ou engano tipográfico importante, etc.) constituem uma categoria especial. Finalmente, alguns livros têm valor elevado, ou são raros porque pertenceram à pessoas famosas e às vezes por causa de inscrições ou anotações que eles fizeram. As obras não impressas figuram igualmente entre os artigos preciosos aos olhos dos bibliófilos: as iluminuras e os manuscritos originais (escritos à mão datilografados ou prova de impressor). Os segundos interessam especialmente aos eruditos e aos críticos por causa das correções e modificações às vezes conduzidas pelo autor na hora da publicação do trabalho.

O interesse dos bibliófilos é na maior parte do tempo determinado: eles constituem suas coleções em um domínio preciso. Alguns colecionadores são especializados em livros de viagens, em livros ilustrados por alguns artistas ou impressos por particulares, de biografias de uma pessoa ou todas as edições dos livros de um autor. O trabalho de um bibliófilo contribui freqüentemente para constituição de uma parte ou da totalidade de uma biblioteca pública. Algumas das maiores bibliotecas do mundo foram constituídas a partir deste tipo de coleções privadas.

Pode-se começar a história da bibliofilia pela fundação da biblioteca de Ninive pelo rei Assurbanipal (668-626 A.C.). O filósofo Aristóteles (384-322 A.C.) possuiu uma biblioteca privada que serviu, dizem, de modelo para a GRANDE BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA, constituída por Ptolomeu II. Em Pérgamo na Ásia Menor, existia a de Eumene II. Na idade média foram constituídas biliotecas importantes em igrejas, mosteiros e catedrais. As universidades também começaram a juntar livros. O interesse por coleção de livros aparece em Philobiblon (1473), trabalho autobiográfico de Richard de Bury, bispo de Durhan, publicado postumamente. Encorajadas pelo espírito humanista e o desenvolvimento da imprensa, as sociedades cultas dos séculos XV e XVI juntaram coleções de obras manuscritas e impressas. Durante os séculos XVII e XVIII, a conservação de livros ficou mais freqüente na Europa. Na França, Richelieu, Mazarin e Colbert constituíram bibliotecas importantes. Nos países germânicos, podemos mencionar August, duque de Brunswick e o Eleitor Friedrich Wilhem de Bradenburg. Na Inglaterra, as atividades dos colecionadores de livros resultaram na fundação do Museu Britânico em 1753. Objetos de luxúria, as bibliotecas também fizeram parte de tributos de guerra. No século XVII, Gustave Adolf, rei guerreiro dos suecos, expedia para o seu país bibliotecas completas proveniente de países que tinha conquistado. Charles X da Suécia e a rainha Cristina fizeram constituir a biblioteca real de Estocolmo na Suécia, da mesma maneira.

Entre os colecionadores americanos famosos, podemos mencionar John Pierpont Morgan, Henry Edwards Huntington e James Lenox cuja coleção faz parte hoje da biblioteca pública de Nova Iorque. No século XIX, Londres era o centro do mercado internacional de livros raros. Entre as obras mais raras, podemos citar a Bíblia de Gutemberg (impressa em Mainz, na Alemanha entre 1450 e 1456) e a primeira edição das peças de Shakespeare (1623)!; edição in-fólio), geralmente chamada o Primeiro Fólio.

Fonte: http://www.chez.com/bibliophile/definition.html#bibliop
Tradução: Sr. Jurandir (Fortaleza, 15.02.99)

Históricas Recordações 
Corrêa do Lago reúne em livro o melhor de sua coleção de cartas, documentos e fotos autografadas

Celina Côrtes  (Isto É)

Os vestígios do hobby do economista carioca Pedro Corrêa do Lago, 40 anos, sobem pelas paredes de sua confortável casa no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. Na parede do hall de entrada, por exemplo, Pedro emoldurou uma série de cartas de casais de amantes famosos, que ele pendurou em homenagem à sua mulher, a psicanalista Beatriz Fonseca, filha do escritor Rubem Fonseca. Lá estão expostos segredos de alcova de Napoleão Bonaparte e sua Josephina, e dos escultores August Rodin e Camille Claudel, entre outros. Há ainda sobre o sofá da sala uma quilométrica carta assinada por Ezra Pound, cheia de correções feitas de próprio punho pelo poeta americano. Parte desse acervo pode ser conhecida agora com a publicação do livro Documentos autógrafos brasileiros, lançado pela editora Salamandra. A obra, que recebeu o prêmio Jabuti de melhor produção editorial de 1997, traz uma seleção de 200 autógrafos, entre os 20 mil que o colecionador obteve em cartas, bilhetes, documentos e fotografias durante os últimos 30 anos.

Representante no Brasil da famosa casa de leilões inglesa Sotheby’s, o economista abriu na década de 80 em São Paulo a livraria de obras raras Corrêa do Lago. Mas essa mania de colecionar autógrafos de pessoas ilustres vem de muito antes. Ainda criança, quando viajou para a Bélgica com o pai diplomata, constatou que colecionar poderia ser uma atividade divertida. Apesar de seus poucos 11 anos, pôde perceber também que no Exterior existia um mercado ativo de colecionadores, ao contrário do Brasil, onde essas pessoas eram tratadas como figuras excêntricas. A brincadeira começou a ficar séria na adolescência, quando decidiu criar um eixo para a coleção que já começava a amontoar. Veio a idéia de se dedicar à procura de textos que contassem os 500 anos do Descobrimento do Brasil. "As pessoas achavam que eu estava doido, oferecendo dinheiro por papel velho", diz, divertindo-se.

Prefaciado pelo empresário e bibliófilo José Mindlin, o livro começa no passado remoto, com a transcrição de uma carta de D. João I, de 1387. Logo no início da empreitada, Corrêa do Lago deu-se conta de que havia uma fartura de documentos a preços acessíveis, ao contrário do que encontrara na Europa, onde a maior aflição era a falta de dinheiro para comprar as raridades que apareciam à sua frente. "Eu me sentia como um dos primeiros bandeirantes que chegaram nas Minas Gerais e encararam o ouro aflorando", compara. Um dos manuscritos que ele mais festeja é a emocionada carta enviada pela Princesa Isabel (1846-1921) à sua melhor amiga, a Condessa de Estrela, a bordo do navio que conduziu a família imperial ao exílio. "As saudades que levo são imensas. Fui tão feliz!", escreveu nostálgica a princesa. Em cada um desses textos históricos há um comentário do autor, explicando a circunstância em que foram produzidos e refletindo sobre a importância política do documento. É o caso da carta íntima de D. Leopoldina (1797-1826) à amiga e confidente Maria Luiza, mulher de Napoleão, que consta na página 52 da publicação: "O caráter de meu marido é extremamente exaltado... qualquer coisa que denote liberdade lhe é odiosa. Por isso só posso observar calada e chorar em silêncio." Sobre esse documento, Corrêa do Lago comenta que as lamúrias da imperatriz foram feitas em alemão, num texto confuso que omite pontuação e permite interpretações diversas.

Mas não apenas dos tempos do império vêm as relíquias. Como o próprio colecionador comenta, não era muito comum que nossos artistas tivessem fotografias autografadas no início de suas carreiras, o que torna a presença da pequena Carmen Miranda (1909-1955) e sua exuberante assinatura numa foto para uma fã em 1924, e a de Tônia Carrero numa outra, datada de 1955, verdadeiras raridades. Ele também diz que sua atração pelos autógrafos jamais teve a ver com a tietagem de quem dá a vida por uma lembrança de ídolos populares, como Roberto Carlos ou Carla Perez. "O que me atrai nesses manuscritos é a possibilidade de perceber as hesitações do autor, assim como o ato da criação congelado e as informações relevantes que não constam dos livros. Meu esforço tem sido pinçar documentos que têm emoção e peso histórico", revela.

A produção do livro foi espinhosa, mas os desafios mais difíceis são também as lembranças mais saborosas, como a ocasião em que entrou em uma galeria de arte, no Rio, há 20 anos. Antes dele, muita gente já havia mexido naquela pilha de papéis e um bilhete passara despercebido. Com uma observação mais atenta, ele encontrou um raríssimo bilhete de Tiradentes, que assinava abreviadamente Joaquim José da Sa.X.er. Eram recibos de quitação de seu soldo de alferes. A luxuosa edição é toda dividida em capítulos. Entre eles, os Visitantes Estrangeiros. É ali que está o seguinte registro eco-antropológico do cientista Albert Einstein, escrito em um cartão-postal: "O Brasil distingue-se pelo brilho de sua natureza e a tolerância de seus habitantes." Documentos de personagens do passado como Machado de Assis, Santos Dummond, Heitor Villa-Lobos, Oswald e Mário de Andrade misturam-se a curiosidades como o ingresso para o último baile da monarquia na Ilha Fiscal, acompanhado do requintado cardápio que oferecia um veau à la Siberiénne, entre os pratos principais, e creme au chocolat, como opção de sobremesa. Para Corrêa do Lago, se faltou alguma coisa em Documentos autógrafos brasileiros foi uma carta de Antonio Conselheiro, o herói de Canudos, que esteve em suas mãos. Não que o autor seja supersticioso, mas o tal documento foi enterrado junto com o religioso e retirado do túmulo três dias depois. Para os leitores, curiosos e colecionadores, essa ausência não fará a menor falta.   [22/04/1998]

Bibliófilos se vão, livros não

 Mônica Riani  (Jornal do Brasil)

"A morte do advogado carioca Plínio Doyle, no último domingo, desfalcou a estante da bibliofilia brasileira. Dr. Plínio, como era tratado pelos mais jovens, dedicou mais da metade dos seus 94 anos a reunir edições raras da literatura brasileira, tornando-se um dos mais importantes nomes da arte de colecionar livros, um tipo raro de gente acostumada a ler as entrelinhas de um texto, atravessar oceanos atrás de volumes e pagar pequenas fortunas por uma primeira edição. No caso de Dr. Plínio, um amor capaz de amealhar 30 mil volumes, todos guardados na Casa de Rui Barbosa. A 28 dias do fim do século 20, com a expansão da internet por territórios impensados - entre eles a produção de livros especialmente para consumo por via eletrônica -, além da aparição do e-book (um aparelho capaz de ser carregado com ampla bibliografia de uma só vez), é possível pensar que o bibliófilo está com os dias contados. O mundo real prova que não. Leilões continuam a atrair compradores de todo o país, livreiros continuam a vender como nunca e novos colecionadores surgem na área e a internet, quem diria, facilita o acesso dos Indiana Jones da literatura a livros mundo afora.

''Em São Paulo há muitos moços se encaminhando para a bibliofilia. Acho que sempre fomos uma minoria. Mas não entraremos em extinção'', brinca José Mindlin, 85 anos. Maior bibliófilo vivo do país, ele coleciona desde os 13 anos e hoje acumula um acervo aproximado de 27 mil volumes, entre raros e de leitura corrente. ''Faz parte desse falso dilema dizer que as novas mídias vão substituir o livro. Não é verdade. O livro vai continuar e o amor pelo livro também. Recebo com prazer os moços querendo saber como colecionar'', afirma.

 Nem tão moço assim, o empresário Ricardo Moura, carioca que vive em São Paulo, descobre a cada dia o prazer da bibliofilia. Tem 50 anos, começou aos 30, hoje possui um acervo que prefere não quantificar e uma certeza: ''A internet não vai matar a coleção de livros. Ninguém pode baixar um livro de 300 anos'', ironiza. Dedicado a colecionar livros sobre a história do Brasil (que começa com os viajantes e termina na morte do imperador D. Pedro II), ele compra mais fora do que dentro do Brasil, onde encontra livros como Memoires de Monsieur Duguay-Trouin, de 1740, primeira edição, sobre o francês que capitaneou o ataque ao Rio em 1711. Ou Notes on Rio de Janeiro, de John Luccock, primeira edição, 1820. O inglês era comerciante em Portugal quando da invasão francesa no final de 1807 por Villegagnon e deixou um relato da transformação do Rio. A internet ajuda a fazer a ponte com o passado. ''Na internet troco informações sobre as novidades da Bauman Rare Books, em Nova York, e a Maggs Bros Ltd., em Londres. Fico sabendo também das previsões da Olimpia Book Faire, sempre entre maio e junho em Londres'', diz.

Uma curiosidade, os concorrentes: ''Por um grande período foram os americanos os grandes compradores. Agora são os alemães e japoneses que estão comprando muitos livros sobre o período colonial. Hoje os livros estão subindo de preço tremendamente'', informa. Mesmo assim, acaba de acertar uma compra na Nova Zelândia, sem revelar o titulo da jóia.

  Livreiro e colecionador, Pedro Corrêa do Lago, de 42 anos, entende a fissura de Moura. Por isso, aposta que a internet também não vá extinguir os bibliófilos. ''Acho o contrário. A internet é soberana e facilita a informação de forma extraordinária. Daqui a alguns anos, quando estiver presente em quase todas as etapas da vida das pessoas, elas terão necessidade de coisas reais. Então, as relíquias da era real serão muito valorizadas'', profetiza.

Corrêa do Lago coleciona papeis antigos, entre documentos e autógrafos históricos. Em 1998, vendeu sua primeira coleção, com 16 mil itens, para a Souza Cruz que doou o acervo para o Memorial do Rio Grande do Sul. A venda foi logo após o lançamento do livro Documentos e autógrafos brasileiros. ''Mesmo assim, sou incorrigível e tive a sorte de conseguir recentemente peças importantes, como a Constituição do Império com anotações do Imperador Pedro II. Estou com a segunda coleção e continuo a reunir fotos do século 19 e papéis antigos'', diz.

Ele sabe o que faz. Na próxima quarta-feira, às 17h, ocorre o 7° Leilão de Livros e Documentos (que estão expostos amanhã e terça-feira no Jockey Club Brasileiro, no Centro, onde também será o pregão), com algumas preciosidades. O organizador, José Luiz de Macedo Soares destaca dentre os 200 lotes, 25 fotos de Marc Ferrez, sobre o Rio na transição do século 19 para o 20. ''Foto do século 19 é o item que mais se valoriza em todos os países do mundo. Há uma tendência de se historiar as cidades'', conta Macedo Soares.

Apesar dessa valorização, Corrêa do Lago diz que só vendeu sua primeira coleção por que ficou difícil administrar seu volume. ''Acho que há colecionadores e colecionadores. Hoje em dia, talvez o que seja virtude de um certo escasseamento de bibliófilos é que, os que sobreviveram, são realmente apaixonados. Antes, havia um grande número de pessoas interessadas em apenas colecionar figurinhas. Hoje em dia isso acabou'', sentencia. Mindlin, que entende do escrito, reflete a respeito: ''É uma pena que a gente tenha que morrer. A gente morre mas os livros ficam e vão ter outras mãos ou instituições.''

Infelizmente, o amor dos bibliófilos pelos livros não parece ser hereditário. Plínio Doyle resolveu a questão quando vivo. Vendeu por cerca de US$ 200 mil o acervo de quase 30 mil volumes para a Casa de Rui Barbosa. E a filha única do colecionador, Sônia, destinou para o mesmo lugar documentos e fotografias do acervo do pai. ''Estamos preparando um grande projeto em 2001 para catalogar esse arquivo. Precisamos de um tratamento especial, para listar as imagens e os personagens que aparecem'', diz Rachel Valença, uma das diretoras da Casa de Rui Barbosa.

Pouco se fala a respeito, mas um grande acervo promete mobilizar os colecionadores em 2001, quando se completam seis anos da morte do pernambucano João Condé, um dos maiores colecionadores de originais manuscritos da literatura brasileira. Os quatro filhos do bibliófilo estão decididos a vender o conjunto. Fontes do mercado dizem que pode chegar a R$ 1 milhão. ''Queremos fazer uma exposição no próximo ano. Futuramente iremos vender sim'', confirma João Carlos Condé, um dos quatro herdeiros. ''Infelizmente, ele não chegou a fazer nenhum pedido específico para o destino da coleção. Teria sido mais fácil'', acredita Maria Alice, outra filha.

O acervo continua no mesmo lugar de quando Condé era vivo, um apartamento em Botafogo. Estão lá testemunhos dos Arquivos implacáveis, coluna de Condé, primeiro publicada na Folha da Manhã, depois na revista O Cruzeiro. Amigo de Drummond, José Lins do Rego, Jorge Amado e muitos outros, Condé juntou acervo invejável. Entre as jóias destacam-se edições raríssimas, como os manuscritos de Vidas secas, de Graciliano Ramos, Fogo morto, de José Lins do Rego, e Brejo das almas, de Drummond. (M.R.) [23/12/2000

Editora reinou por quase meio sécul - Casa José Olympio

Editora reinou por quase meio século

Casa José Olympio lançou livros e autores que se tornaram célebres

RIO - Do início dos anos 30 até meados dos anos 80, a Casa José Olympio foi uma das principais editoras do Brasil, lançando títulos e autores que fizeram a história de nossa literatura, ficcional ou não. A principal figura da empresa era o editor que lhe dava o nome, mas ele distribuía bem as tarefas, encarregando o irmão Daniel, da feitura dos livros e gente como a escritora Rachel de Queiroz e o poeta Carlos Drummond de Andrade da primeira leitura e seleção de originais. Os ilustradores eram os grandes artistas plásticos da época, como Luiz Jardim, Santa Rosa, Cícero Dias e Poty, etc.

Os livros foram a única profissão de José Olympio, embora ele mesmo nunca tenha escrito algum. Seu primeiro emprego foi de balconista na Casa Garrot, ainda nos anos 20. No início da década seguinte, abriu sua própria livraria, com o acervo da biblioteca que havia comprado de Maurício Pujol, um intelectual paulista. No ano seguinte, publicava o primeiro livro, Conheça-te pela Psicanálise, do norte-americano J.H. Halph, traduzido por José Américo Camargo. Mais um ano se passaria até sair o primeiro livro brasileiro, Itararé! Itararé!, um relato da Revolução Constitucionalista de São Paulo, feito por Honório Sillos.

Com o sucesso dos dois livros, a editora cresceu e passou a arriscar nos autores que estavam começando. "Eu o conheci como balconista da Casa Garrot, e acompanhei toda sua carreira", comenta o bibliófilo e colecionador José Mindlin. "Ele gostava de lançar autores novos, os mesmos que hoje são os nossos clássicos, e arriscava em grandes tiragens."

Diz a lenda que José Lins do Rego, então um escritor de relativo sucesso regional, foi o primeiro a surpreender-se com a filosofia de trabalho. "Ao receber a oferta de uma edição de cinco mil exemplares de seu romance Banguê, ele veio da Paraíba só para conhecer quem era o editor excêntrico", conta o ex-secretário de José Olympio e atual curador do acervo, Sebastião Macieira.

Jorge Amado, Sérgio Buarque de Hollanda, Rubem Braga, Guilherme Figueiredo, Gilberto Freire e quase todos os clássicos brasileiros ganharam abrangência nacional na José Olympio, mas os anos 70 e 80 não foram propícios à editora.

Afogada em dívidas, foi vendida em 1984 para Sérgio Gregori, que mais tarde morreria num acidente de automóvel. Seus herdeiros continuam à frente da casa, mas hoje ela é um dos negócios da holding e os grande autores são publicados por outras editoras surgidas nos últimos 30 anos. (B.C.S.)

Confraria dos amantes de livros

Enéas Athanázio

"Homem de bom gosto e de iniciativa, aficionado do livro, José Salles Neto criou a Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília e associados em todo o País. Seu objetivo é publicar livros importantes para as letras ou a cultura nacionais, de preferência quando coincidem com alguma efeméride relacionada à obra ou seu autor, em edições de luxo e exclusivas para os associados, com os requintes da bibliofilia que fazem o encanto dos maníacos por livros. São publicações que tornam o livro em si uma obra de arte, valorizando ainda mais o conteúdo. O número de associados é limitado, mas ainda existem algumas vagas (caixa postal 8631 ­ CEP 70.312-970 ­ Brasília/DF).

Em sua curta mas ativa existência, graças aos esforços de Salles Neto, a confraria já comprovou que veio para ficar. Suas publicações até agora dadas a público, em número de cinco, têm merecido os melhores aplausos dos entendidos no assunto, associados e pessoas que a elas têm tido acesso. Desde seu aparecimento, a confraria publicou "O Quinze", célebre romance de Rachel de Queiroz, "A Hora e Vez de Augusto Matraga", louvadíssimo conto de Guimarães Rosa, "Juca Mulato", conhecidíssimo poema de Menotti Del Picchia, um dos livros mais publicados do País, com mais de 100 edições, "7 Contos de Herman Lima", retirando do ostracismo um magnífico contista e, por fim, em junho de 1999, "Prelúdio da Cachaça", de Luís da Câmara Cascudo, coroando os festejos do centenário do mestre de Natal e recuperando uma obra muito curiosa, reveladora da espantosa erudição de nosso folclorista maior.
Como os demais, este lançamento é primoroso. É uma edição especial de 211 exemplares, em tamanho grande (30x30cm), numerados (cada associado tem seu número), assinados pelo ilustrador e pelo editor responsável. Ilustrado com xilogravuras exclusivas do gravurista pernambucano J. Borges, foi composto em linotipo, impresso em máquina semi-automática e com acabamento especializado. Trata-se, enfim, de um livro que em nada perde para aquelas feitos por entidades congêneres de todo o mundo e que em breve será disputado pelos colecionadores.


Nesse livro, creio que dos menos conhecidos da vasta obra de Cascudo, ele faz a etnografia, a história e a sociologia da aguardente no Brasil. Busca desvendar sua origem e identificação no correr dos tempos, sua presença e sua ausência, o folclore que a cerca, a técnica de sua fatura, cerimonial, sinônimos, cantigas e trovas, etiquetas e outros tantos assuntos, sempre naquele estilo personalíssimo que Cascudo punha nos seus textos, escrevendo como quem fala, sentado na cadeira de balanço, para ouvintes atentos. Revelando, mais uma vez, aquele conhecimento seguro e vasto de que sua obra é o melhor testemunho. Com esse livro, Cascudo e a confraria saem engrandecidos, e nós, leitores associados, enriquecidos.
O caderno cultural "Civilização", do "Jornal de Brasília", escolheu a Confraria dos Bibliófilos do Brasil como o melhor projeto de literatura de 1999. O próximo lançamento da confraria, ainda neste primeiro semestre, será uma edição dos poemas de Augusto dos Anjos.

Enéas Athanázio é escritor em Balenário Camboriú e sócio-fundador da Confraria dos Bibliófilos do Brasil."

25/12/2000

José Brito, o Último Encadernador- dourador

José Pinto de Sá (Jornal Público)

"UMA PROFISSÃO CADA VEZ MAIS RARA

A trabalhar em Évora há quase cinquenta anos, José Brito diz que "já não há o interesse, o prazer" da encadernação: "Isto não deu para aquilo que eu ambicionava, mas não vou recuar, porque faço isto por gosto".

A oficina de Mestre José Brito é um oásis de ordem e tranquilidade no bulício da Praça do Giraldo, no coração de Évora. Acede-se ao primeiro andar, por cima dos arcos, por uma escadinha estreita e íngreme, e a porta da oficina está sempre entreaberta. Em meio século, pouco ali mudou. As mesmas máquinas e as mesmas ferramentas ocupam os mesmos lugares, e o mesmo homem ali prossegue o mesmo trabalho, numa clausura monástica que se foi tornando solidão, nestes dias em que, como ele diz, "já não há encadernadores nem clientes para eles".

Nascido em Montemor-o-Novo há 69 anos, foi ali que José Brito iniciou os estudos primários, mas a morte do seu pai, aos nove anos, viria a afastá-lo do Alentejo por muito tempo, quando, para ajudar a viúva, um parente se ofereceu para custear os estudos de um dos quatro órfãos. "Calhou-me a mim e fui para as Oficinas de S. José, em Lisboa", recorda Brito. Nos Salesianos completou a quarta classe e, aos 12 anos, optou pelo curso industrial, escolhendo o ofício que viria a exercer por toda a vida. "Fui para encadernação como podia ter ido para outro qualquer, mas fui", explica com simplicidade. Foi e deu-se bem, depressa se destacando entre os condiscípulos pela sua habilidade a encadernar.

A meio do segundo ano do curso industrial, encheu-se de coragem e pediu ao mestre de oficina que o deixasse dourar um livro, uma tarefa de superior responsabilidade. "Não", respondeu-lhe o mestre. "Ainda não chegou a altura". Porém, tanto insistiu que o professor acedeu: "Eu deixo-te dourar um livro, mas tu vais arriscar", preveniu-o. "Se sair mal, ficas de castigo durante oito dias, uma hora e meia de pé ao lado da cama todas as noites".

"Arrisco", replicou o rapaz. Acabado o trabalho, submeteu-o ao mestre, que se limitou a dizer: "Nem está bom, nem está mau, mas amanhã passas para a secção de dourado". E foi assim que José Brito se tornou dourador, arte que passou a acumular com a encadernação, numa associação de ofícios que, nas últimas décadas, se foi tornando cada vez mais rara. Frederico Mira, na apresentação de uma extensa entrevista com Brito publicada em Fevereiro pela Câmara de Évora, considera-o mesmo o "último detentor do saber iniciático do segredo dos livros", o que não deixou de surpreender Mestre Brito: "Palavra de honra que nunca pensei que já fosse o único, mas ele afiança que correu Portugal inteiro e não encontrou mais nenhum encadernador-dourador em actividade".

Acabado o curso industrial aos 19 anos, com excelentes notas, foi convidado pelo director das oficinas a permanecer na instituição. Aceitou e lá trabalhou seis anos como chefe de oficina, até que, por morte de um avô, herdou 25 contos. Aproveitando para se estabelecer por conta própria, comprou a maquinaria necessária, encomendou de Paris os ferros de dourar e abasteceu-se de materiais para começar a actividade.

Foi um tio que lhe encontrou o local que ainda hoje ocupa, na Praça do Giraldo, em Évora, para onde se mudou em Julho de 1955. "Estou aqui a trabalhar há 47 anos e, felizmente, eduquei as minhas filhas, mas não tenho mais nada", confidencia sem rancor. E acrescenta logo: "Isto não deu para aquilo que eu ambicionava, mas não vou recuar, porque faço isto por gosto".

Reconhece que "já não há o interesse, o prazer" da encadernação, mas não deixa de se revoltar quando um cliente se queixa dos preços. "Não, isto não é caro", costuma responder. "Pode ser muito dinheiro, mas o meu amigo não sabe o trabalho que isto dá".

Os tempos vão maus para a profissão, e confessa que "o que está a safar hoje em dia os encadernadores são os fascículos que saem na imprensa" e que recebe para empastar, com as respectivas capas de edição. Ressalva desde logo que "o empaste não é encadernação" e que, para os encadernadores, esse trabalho "não tem gozo nenhum, não tem arte", mas reconhece que é o mais rentável: "Para empastar um livro levo dois contos e posso fazê-lo em meia hora, fora o tempo de secagem; para encadernar levo dois contos e quinhentos, mas demoro muito mais tempo".

A encadernação de arte é uma actividade morosa demais para os tempos que correm, e não tem como resistir à concorrência da indústria. José Brito dá-se por vencido, mas não por convencido: "Abre-se o livro meia dúzia de vezes e aquilo é um baralho de cartas".

Mas a falta de qualidade não é, na sua opinião, exclusivo da encadernação industrial. "Há hoje encadernadores, amadores e profissionais, que não sabem os princípios básicos de um livro, não sabem quantas folhas tem um caderno", lamenta Brito. "Falta brio profissional". Sente-se que isso o pena, a ele que, em 47 anos de profissão, nunca recebeu uma reclamação. E frisa logo que, no dia em que se aperceba que já não consegue fazer o serviço tão bem, deixa de trabalhar: "Para fazer mal feito, não faço, de certeza absoluta".

Mil contos pelo «Padre Amaro»

Paula Freitas Ferreira (Diário de Notícias)

Uma rápida viagem, com o alfarrabista Nuno Canavez, aos valores económicos das primeiras edições de Eça, um dos autores mais procurados por quem pretende encontrar livros antigos

Em termos de alfarrabista, um bom exemplar da 1.ª edição de O Crime do Padre Amaro poderá valer mil contos. Já O Mistério da Estrada de Sintra andará por metade, enquanto O Mandarim ronda os trezentos, Os Maias duzentos e O Primo Basílio cento e cinquenta. O livreiro-antiquário Nuno Canavez (Livraria Académica, Porto) aponta estas edições princeps como as mais raras e caras.

Apontado por Nuno Canavez como um dos autores mais procurados, Eça atrai as mais variadas espécies de clientes. Procuram-no desde o leitor comum, que lê Eça, Camilo ou Torga, até ao bibliófilo, que conhece a vida do autor e as suas vertentes, chegando ao coleccionador, que não descura a aplicação do capital. É este o cliente mais assíduo e o melhor em termos financeiros, mas possivelmente o que menos lê, nas palavras de Nuno Canavez.

«Eça está para a prosa no século XIX, como Fernando Pessoa está para a poesia no século XX», quem o diz é Nuno Canavez, alfarrabista e proprietário da Livraria Académica, no Porto. Apaixonado pela obra de Eça e pelo próprio escritor, que considera como um dos maiores romancistas da Europa do século passado, o alfarrabista Nuno Canavez dedica uma das montras do seu estabelecimento ao centenário da morte do autor de Os Maias. Várias edições das obras de Eça de Queirós e de outros autores que sobre ele escreveram, encontram-se expostas e são renovadas de dois em dois dias. Assim, o alfarrabista cumpre o seu objectivo, ou seja, dá a conhecer amplamente boa parte das bibliografias activa e passiva do grande escritor.

Embora grande parte da obra de Eça tenha sido publicada em vida, cerca de metade é de edição póstuma. Célebres, as suas cartas autógrafras já não aparecem nos arquivos deste alfarrabista há vários anos. Eça escreveu poucas cartas, ao contrário de outros autores, como Camilo, de quem se conhecem milhares de textos epistolográficos. Em fim de conversa, Nuno Canavez, retocando a posição de um busto de Eça, coloca na montra uma edição do seu romance preferido, Os Maias.

 12/07/2000

Morreu o Inventor da Expressão Big Bang - Fred Hoyle

Teresa Firmino (Jornal Público)
Quinta-feira, 23 de Agosto de 2001

Fred Hoyle, defensor da teoria do Universo estacionário e escritor de ficção científica, faleceu em Inglaterra

FotoNão defendia a teoria do Big Bang, pelo contrário. Mas por ironia, o cosmólogo e astrofísico britânico Fred Hoyle ficou conhecido como o inventor desta expressão, ao ridicularizar a teoria que defende que o Universo nasceu de uma grande explosão, há cerca de 15 mil milhões de anos. Para troçar dessa teoria, Fred Hoyle chamou-lhe o Grande Estrondo - Big Bang - num programa de palestras radiofónicas da BBC, que conduziu em 1950. Na segunda-feira, aos 86 anos, Fred Hoyle morreu em Bournemouth, Inglaterra.

O cosmólogo não conseguiu recuperar de um acidente vascular cerebral que sofreu no mês passado, disse o astrofísico Geoffrey Burbidge, da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), que colaborou muitas vezes com Fred Hoyle. "Provavelmente, Fred foi a pessoa mais criativa e original a trabalhar em astrofísica depois da II Guerra Mundial", comentou Burbidge ao jornal "The New York Times".

Fred Hoyle ficou mais conhecido como um dos autores da teoria do Universo estacionário - uma teoria cosmológica, hoje partilhada por poucos cientistas, que defende que o Universo existe num estado estacionário. "Esta teoria deixou de interessar os cosmólogos há 30 anos. No entanto, esta concepção do Universo continua presente na mente das pessoas comuns, quanto mais não seja como uma teoria rival da do Big Bang", conta John D. Barrow, professor de astronomia da Universidade de Cambridge, desde há cerca de dois anos, no livro "A Origem do Universo" (editora Rocco).

A teoria do Universo estacionário foi proposta por Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi em 1948. Nessa altura, já se sabia que o Universo está em expansão: em 1929, o astrónomo Edwin Hubble descobrira-o, ao observar que a luz das galáxias sofria um desvio para o vermelho no espectro electromagnético. Isso significa que se afastam de nós e, logo, que o Universo continua em crescimento.

Mas o que os três autores propuseram foi que o Universo não teve um princípio nem terá um fim. Simplesmente, a matéria está constantemente a ser criada, por isso o Universo em expansão permanece sempre mais ou menos o mesmo.

Ao invés, na teoria do Big Bang, o Universo em expansão é associado a um princípio - em que a matéria foi criada - e a uma densidade cada vez menor da matéria à medida que os aglomerados de galáxias se afastam. Portanto, terá um fim. Fred Hoyle defendia que a matéria está permanentemente a ser criada, a um ritmo que anula a diluição associada à expansão do Universo. Assim, o Universo perpetuar-se-ia para sempre.

O público não esqueceu a acesa discussão entre os adeptos das duas teorias, lembra John D. Barrow: "A discussão foi realizada num influente programa de palestras da BBC, intitulado 'The Nature of the Universe', apresentado em 1950 por Fred Hoyle." Ali, criou o termo Big Bang, como designação pejorativa do modelo cosmológico em que o Universo se expande num intervalo de tempo finito. Ironia da história: opôs-se ao Big Bang, mas foi ele quem inventou o nome.

Mesmo que agora os adeptos do Universo estacionário sejam poucos, os cientistas enaltecem os méritos de Hoyle por ter fomentado o debate e obrigado a que teorias concorrentes fossem testadas em observações. De facto, em 1965, a teoria do Universo estacionário morreu, quando Arno Penzias e Robert Wilson descobriram acidentalmente a radiação de fundo de micro-ondas, um vestígio do Big Bang e de um Universo primordial muito quente e denso.

No campo da astrofísica, Fred Hoyle deu um contributo histórico: depois de Hans Bethe e outros cientistas terem mostrado, nos anos 30, como é que as estrelas obtêm energia a partir da fusão dos átomos de hidrogénio e formam hélio, explicou como é que os elementos químicos mais pesados, como o carbono, o azoto ou o oxigénio, se criam dentro das estrelas.

A explicação, publicada em 1957 na revista "Reviews of Modern Physics", teve ainda como autores William Fowler, Geoffrey Burbidge e Margaret Burbidge. Por causa deste e de subsequentes trabalhos em astrofísica, William Fowler ganhou o Prémio Nobel da Física. Hoyle e os restantes dois autores ficaram de fora.

Nascido em Bingley, Yorkshire, e filho de comerciantes de lã sem grandes posses, Hoyle conseguiu chegar à Universidade de Cambridge. Foi lá que veio a fundar, em 1966, o Instituto de Astronomia Teórica.

Antes de Stephen Hawking, Hoyle era o astrofísico britânico mais conhecido. Hoyle perfilhou outra teoria polémica e muito pouco aceite pela comunidade científica: a panspermia, que defende que a vida veio do espaço.

Mas foi astrofísico, apenas? Não. Foi também autor de muitos livros científicos e de divulgação científica, a que se junta uma faceta de escritor de ficção científica ("The Black Cloud", de 1957, é um dos mais conhecidos). Entre 1950 e 1990, escreveu quase um livro de ficção por ano.

Precisamos de Uma Gota de Sangue

António Cândido Franco (Jornal Diário de Notícias)
2 de Setembro de 2001

Agora que o sopro das lagunas paludosas do Verão se faz mais baixo e parado, Portugal parece que acordou a perguntar pela crítica literária. O assunto não mereceria muita atenção, se a pergunta não fosse outra forma de se saber por onde anda a literatura portuguesa. Perguntam-me o que penso da matéria? Vou dizê-lo em meia dúzia de palavras.

A crítica literária para existir precisa de satisfazer a imparcialidade dos juízos e a compreensão inteligente de uma obra. Sem imparcialidade de juízos não há crítica independente; sem assimilação da ideia verbalmente expressa não há destreza crítica.

Foi esta combinação feliz que esteve na origem, na segunda metade do século XIX, de uma crítica literária altiva, que, pela sua independência e ousadia, se mostrou um contributo cultural decisivo para o alargamento da liberdade e o enriquecimento da inteligência.

Em Portugal não existe hoje nenhuma crítica a cumprir esta missão. O grande talento crítico português, depois da actividade de Moniz Barreto e Sampaio Bruno (a que se poderia acrescentar Júlio Lourenço Pinto e Silva Gaio), foi João Gaspar Simões, que somou mais de 60 anos de actividade crítica independente. O seu exercício pode ser avaliado nos seis ou sete volumes da Crítica, ao longo de milhares e milhares de páginas, que a Imprensa Nacional tem vindo a reeditar. Está lá uma honestidade pedagógica exemplar e uma habilidade interpretativa notável.

Depois dele, só vejo Luiz Pacheco, que retomou a acutilância de Fialho, que Simões descuidou levemente, elevando a actividade a um nível de humor e valentia, que foi porventura a mais saudável lição de independência e guerrilha a que Lisboa assistiu na segunda metade do século XX.

Depois de Simões e Pacheco, passamos a ter recenseadores de livros, não críticos literários. O mais conhecido deles é Eduardo Praco Coelho que mantém uma coluna semanal. A fragilidade da sua actividade está bem patente nas descaradas ligações ao poder político, que lhe coarcta toda a independência e faz dele o ponto nevrálgico de uma coterie cada vez mais interesseira e presumida.

No tempo da ditadura, ante a intransigência e a estupidez dos mandantes, a crítica literária foi, com Simões e Pacheco, mas também com outros, um excelente reduto da soberania do indivíduo e da sua opinião; com a democracia dos partidos, a crítica literária foi convidada a desfilar nas passerelles do poder e passou a ser, com Prado Coelho, uma clientela feroz de comissários públicos.

A forma desonesta e malcriada como ele reage à mais pequena chamada de atenção mostra falta de lhaneza, mas também desorientação. Se a sua palavra é bitola, como nos querem fazer crer os patetas que o temem e adulam, então Deus meu, Prado Coelho está em maus lençóis. Não foi ele que disse, todo adiantado, que Venâncio era "um parolo com discurso salazarista"? Merece então que o castiguem como o "cacique gonçalvista" da crítica literária portuguesa ou que o lembrem como o seu "empreiteiro cavaquista". E a coisa promete, já que ele se está a tornar no seu mais ladino ratão globalizador.

Falar dos Jacques Rivières de todo o mundo, mas ser incapaz de dizer uma palavra sobre o José Marinho é um estenderete tão trivial como ridículo. Não quero uma globalização literária assim e prometo não dar descanso ao assunto. Para já, digo para mim que não é por acaso que o Acácio do romance passava a vida a citar, à direita e à esquerda, todos os ilustres conhecidos, sobretudo estrangeiros, mas era incapaz de dizer uma palavra sua que fosse.

A actividade de Eduardo Prado Coelho tem aspectos perniciosos, que precisam de ser corajosamente avaliados e denunciados. Fernando Venâncio tem o mérito de a mandar recolher, sem a mandar calar. É um acto destemido, talvez áspero, mas necessário e legítimo. Não sei se a pessoa de Prado Coelho está a estragar a literatura portuguesa; o que sei é que é preciso descobrir sem demora alternativas a uma crítica que nos quer obrigar a consensos forçados, a unanimidades de fachada e a silenciamentos passivos.

Uma crítica como a de Prado Coelho, assente por inteiro na gravidade das citações ilustres e pedantes, no formalismo correcto e sem desvios das opções - que o mesmo é dizer, na elegância das gravatas que tão bem escolhe -, arrisca-se a ser uma crítica gagá, que nos anda a cretinizar a todos.

Volto ao início. O País acordou a perguntar pela crítica literária e eu respondo-lhe que, numa época de distracções ligeiras, saldos de Verão e outras coisas assim preguiçosas, ela está empalhada e imbecil. O solo é árido e a água salobra. É preciso uma gota de sangue para que a esperança da renovação se instale na imutabilidade do cosmos. Não me levem a mal o propósito, que só pretende dar um empurrão salutar a esta tristeza de fim de estação.

Centenário do Nascimento de José Régio

Fernando Pinto do Amaral (Jornal Público)
Segunda-feira, 17 de Setembro de 2001

Régio nasceu há 100 anos

Cem anos depois de ter nascido, José Régio continua a representar o paradigma do escritor atormentado com os seus fantasmas. E nada podia prejudicar a obra "gigantesca" a que se propunha realizar

FotoFilho de José Maria Pereira Sobrinho (um ourives com gosto pelo teatro) e de Maria da Conceição Reis Pereira (mulher sensível e nervosa, a quem Régio atribuía alguma responsabilidade na sua vocação literária), José Régio (pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira) nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901. Aí frequentou a escola primária e os anos iniciais do liceu, que terminaria no Porto, juntamente com o seu irmão Júlio (1902-1983), também poeta com o nome de Saul Dias e um dos mais singulares artistas plásticos da sua geração.

Para lá de tudo o que terá germinado ao longo da adolescência e é sempre difícil de avaliar - convívio com colegas, crises religiosas, leituras da biblioteca familiar -, pode dizer-se que o período crucial da sua vida decorre a partir de 1920 em Coimbra, onde frequenta o curso de Filologia Românica, concluído em 1925 com uma tese de licenciatura que mais tarde se transformará na "Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa" (1941).

Leitor de Camilo, Flaubert, Tolstoi, Proust ou sobretudo Dostoievski, José Régio aproveitou os decisivos anos de Coimbra para uma formação cultural apoiada numa vasta curiosidade literária e humana, que o levou a descobrir os autores do "Orpheu" e a conviver de perto com João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Afonso Duarte, Casais Monteiro, Edmundo de Bettencourt, Torga, António de Sousa, etc. Publicando os "Poemas de Deus e do Diabo" em 1925 - livro logo saudado por alguns críticos - Régio lançar-se-á dois anos depois (com Branquinho da Fonseca e Gaspar Simões) na aventura da "Presença", que até 1940 editará um total de 56 números.

Sobre a importância dessa revista para o chamado "segundo modernismo" já muito foi dito, e de perspectivas diferentes, por grandes leitores como Jorge de Sena, David Mourão-Ferreira ou Eduardo Lourenço, entre outros. Para Eduardo Prado Coelho, ela acabou por ter uma "função cicatrizante" em relação à ruptura modernista do "Orpheu". Quanto às suas bases estéticas, assentavam no critério da originalidade individual, entendido em função das personalidades dos autores e do que pudessem trazer de novo ou interessante à literatura. Como escreveu Régio no célebre texto que abria o primeiro número, "literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida (...). Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura que ele produza será superior".

Embora mantendo intensa actividade na "Presença" e noutras revistas e jornais, José Régio seguiu a carreira do ensino secundário, passando fugazmente pelo Porto (1928/29) e sendo colocado no Liceu de Portalegre a partir de 1930, onde permaneceu mais de 30 anos, até se reformar em 1962. Nessa cidade a sua existência fluiu, solitária e tranquila, entre o liceu, os cafés - Régio gostava de ir ao café - e a casa (hoje museu) onde foi acumulando uma enorme colecção de peças de arte sacra (sobretudo Cristos). Cultivando a prática epistolar, mas decidido a "mandar passear esse mundanismo-camaradismo-literatice para que não nasci", Régio não quis casar nem constituir família, tendo justificado essa opção na resposta a um questionário que um dia lhe foi enviado por Jorge de Sena: "Penso que o matrimónio ainda será o estado mais normal do homem (Digo estado normal e não natural. Parece-me que, naturalmente, o homem é polígamo). Ter filhos - também me parece o mais normal. Acho que vale a pena tê-los, apesar das preocupações que daí possam advir. Se eu resolvi muito novo não me casar (...), foi por me parecer que me dedicaria por demais à mulher, aos filhos, à casa - e isso prejudicaria a obra gigantesca que eu me propunha realizar (A que distância fica a gente do que na adolescência sonha!)".

Alternando entre Portalegre e longos regressos a Vila do Conde (hoje sede do Centro de Estudos Regianos), José Régio dedicou os últimos tempos da sua vida a uma espécie de balanço interior, extravasado nas páginas da "Confissão dum Homem Religioso", livro que retrata a sua busca espiritual mas que deixou incompleto, ao ser surpreendido por um enfarte do miocárdio em Outubro de 1969, falecendo dois meses depois. Considerado pelo Padre Manuel Antunes "talvez a figura literária mais completa do século XX", admirado por uns, depreciado por outros, mas sempre lido e estudado por muitos escritores e críticos (de que o principal é hoje Eugénio Lisboa), José Régio continua a representar o paradigma do escritor atormentado com os seus fantasmas e, acima de tudo, as mil e uma contradições do enigma humano que se condensa na essência disso a que chamamos "poesia".

Os Meus Livros - António Pedro Vasconcelos

Inquérito (Jornal Público)
Sábado, 29 de Setembro de 2001

Qual foi o último livro que leu?

Uma amiga brasileira pediu ao João Ubaldo Ribeiro que lhe aconselhasse o livro mais interessante que ele tivesse lido recentemente, e ele respondeu-lhe: "Cara, eu agora só releio!" Neste Verão, reli todo o Molière (um regalo!) e descobri o Gogol, de quem li tudo. Apetece aprender russo só para ler autores tão geniais como ele ou o Puchkine. Ah! E descobri em Buenos Aires um livro sublime de um autor uruguaio: "Seis Relatos Magistrales", de Felisberto Hernandez (escusam de procurar).

O último que abandonou a meio?

"Ingrid Caven", de um tal Jean-Jacques Schuhl, que ganhou o Goncourt há dois anos, e que é o exemplo das piores armadilhas em que pode cair a crítica francesa. Abandono quase sempre os livros que, nos meus momentos de optimismo, me decido a comprar em tradução portuguesa (exemplo recente: "A Invenção de Morel", de Bioy Casares: ilegível).

E o último que ofereceu?

A um amigo, "Coisas da Terra e do Mar", que o Vila [cozinheiro, proprietário do restaurante Vila Lisa] escreveu sobre a cozinha algarvia, uma coisa que ele diz que descobriu, mas que eu acho que inventou. E ao meu filho mais novo "Son of the Sun", do Jack London.

Lê vários livros ao mesmo tempo?

Sobretudo em férias, levo duas malas de livros: gosto de petiscar. É o princípio do harém: devemos ter sempre à mão várias hipóteses de procurar o prazer.

Como é que arruma os seus livros?

Os que ando a ler ou acho que vou ler, em pilhas em cima das mesas e cadeiras, e mesmo no chão. Os outros, em estantes, por categorias: clássicos, poesia, teatro, ensaios, romance (francês, português, russo, espanhol, por ordem cronológica), mas também cinema, charutos, bridge, futebol, etc.

Tem mais ficção, poesia, ensaio?

Ficção. "Acredito na salvação dos povos pela ficção", disse-me um dia um amigo, e tinha razão. A grande crise que estamos a viver é precisamente a crise (ou o empobrecimento) da ficção, que o Steiner não cessa de questionar.

Onde é que prefere ler (cama, café, praia, etc.)?

Em todo o lado: cama, café, praia, casa de banho, metro, avião, comboio...

Que livro gostaria de ver traduzido em Portugal?

Quase todos. O que nos falta é uma versão da Pléiade, com edições críticas dos clássicos. Mas como há anos que não consigo sequer comprar o teatro completo do Gil Vicente...

Sublinha os livros, escreve nas margens, usa marcadores?

Trato os livros de que gosto com um amor insaciável, desenfreado: risco-os, escrevo notas, sublinho, maltrato-os, até os fazer carne da minha carne, sangue do meu sangue.

Consegue escolher o livro da sua vida?

É impossível, mas penso que se há uma matriz de tudo é talvez a "Antígona".

Memórias: O Surrealismo no Café

Ernesto Sampaio (Jornal Público)
Sábado, 22 de Dezembro de 2001

É o desejo que liga o homem ao mundo. Sem o desejo, o mundo estaria morto para o homem e o homem morto para o mundo. Mas não é fácil a vida do desejo. Gerado nas profundezas labirínticas de um inconsciente arcaico, o desejo procura objectivar-se, encontrar o seu objecto, mas a consciência não deixa. A consciência recalca-o, desvia-o, corrige-o, censura-o. De meio de libertação e realização do homem, a consciência transforma-o em meio de destruição.

Ao desejo, chama o surrealismo necessidade interior, e ao objecto que clama pelo desejo necessidade exterior. À convergência das necessidades interior e exterior dá o nome de "acaso objectivo". O acaso objectivo é portanto um encontro, mas um encontro decisivo, que transforma as nossas vidas, e é por isso que os ambientes naturais do surrealismo são as grandes cidades, onde as possibilidades de encontros de acaso são maiores.

Nas grandes cidades, as pessoas encontram-se, ou encontravam-se, nos cafés, e assim a versão portuguesa do surrealismo concentrou-se sucessivamente em três cafés: no Herminius, onde se procurou; no Royal, onde se encontrou; e no Gelo, onde se disseminou. Hoje, o Herminius é uma agência funerária, o Royal um banco, e o Gelo uma casa de comida americana. Parece uma fábula ou metáfora neo-realista sobre a evolução da nossa sociedade. Digamos que ao Herminius correspondeu a fase do dadaísmo e da politização, ao Royal a irrupção da poesia na vida, e ao Gelo uma espécie de contágio do surrealismo à generalidade da poesia e da arte modernas portuguesas.

Houve, é claro, outros cafés onde o surrealismo assomou: a Mexicana, o Lisboa, o San Remo, o Monte Carlo... No que me diz respeito, aí pelos dezassete, dezoito anos, o acaso levou-me a frequentar o Ribatejano, um café situado nos Anjos, que naquele tempo era um bairro tranquilo e aprazível, e é hoje dos menos recomendáveis de Lisboa (prostitutas, drogados, ladrões). Aí se reunia um grupo jovens como eu (bem, como eu não: havia o Parricida, o Marreco das Luzes, o Maldito Sofrimento, o João Rodrigues, que mais tarde haveria de voar no céu das redondezas e foi meu querido companheiro nos primeiros anos do liceu e na militância no MUD Juvenil), completamente loucos e involuntariamente dadás. Ninguém ainda tinha ouvido falar de surrealismo. A principal actividade era de natureza lúdica. Inventavam-se jogos, e um deles consistia em passear na Avenida Almirante Reis munidos de cópias ao stencil de mapas do local que íamos marcando a lápis de cor. O vermelho significava a zona onde sentíamos que qualquer coisa nos procurava, qualquer coisa de propício à eclosão mais forte do desejo; o cinzento representava uma zona neutra, de tédio, onde sentíamos que nada se passava ou viria a passar-se; e o azul assinalava uma espécie de ameaça, obscura e irracional. Depois, no café, juntávamos os vários mapas e verificava-se que as marcações feitas por cada um coincidiam quase todas.

Estávamos, sem o saber, em pleno centro nevrálgico do surrealismo. Pode dizer-se que a transformação decisiva da minha vida, para o melhor e para o pior, começa aqui, nesta forma embrionária de "acaso objectivo" que conduziu fatalmente os meus passos, como num sonho, até às pessoas, às situações, aos livros, às obras de arte e aos sítios que correspondiam ao meu desejo.

Cesariny Nunca Existiu Ou Antes Para O Tabaco

Mário Santos (Jornal Público)
Sábado, 19 de Janeiro de 2002

FotoDe Fernando Pessoa, disse uma vez Mário Cesariny: "Viajou sempre em primeira classe, mesmo quando estava parado." Foi numa nota à primeira publicação, em 1953, do poema "Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos" (a lembrar: "Mas vejamos, ó minha alma, se podes, arrumemos/um pouco a casa escura que te deram."). Pessoa nada terá dito de Cesariny por metafísica incompatibilidade de horários. Mas eu próprio - e confesso que não tanto para embaraçar o mutismo pessoano mas porque fazia jeito ao texto então em curso - ousei em 1999 (v. PÚBLICO/"Leituras" de 12/06/99) que se poderia dizer o mesmo de Cesariny. A saber: que bocejou sempre em primeira classe, mesmo (ou sobretudo) quando estava acordado. Entenda-se: bocejou para o tédio remeloso de uma "literatura de talentos" (e outros desalentos), essa literatura que é o remédio rancoroso do tal país onde os homens "são só até ao joelho", ou nem isso, e o lirismo ("Que mau tempo estará a fazer no Porto?/Manhã triste, pela certa!") é só, demasiadas vezes, "epigonismo da prisão de ventre". Da prisão de sempre. Em 2000 (no nº 3 da revista "Hablar/Falar de Poesia") Perfecto Cuadrado, reputado e apaixonado investigador universitário do surrealismo que houve nome em Portugal, voltou à carga. Está visto que o mote engrenou, à desfilada, e tenho de variar a glosa.

A história da recepção da obra (e da vida) de Cesariny é um pouco a história de uma decepção: a Poesia ardendo no meio de uma cabisbaixa razão crítica que não tem outro agasalho que não seja o alçapão que se abre à sua passagem. O foco da recepção demasiadas vezes cega a mão que o segura. Tudo depende do ângulo de incidência, claro. Mas não se catalogam poetas como quem arruma comedores de pipocas numa sala de cinema. Para verem passar a História, entretidos com os trocos da Realidade, as limalhas do Amor. Os poemas desarrumam-se melhor no escuro da alma. Às escuras. Uma questão de amor negro. Euroleitores, meus irmãos neste desastre: continua a faltar por aqui um grande Tesão. Mas o Tesão que falta é Outro e é Louco (com licença de António Maria Lisboa). Ou seja : "Sai-se para a literatura quando é da literatura que é preciso sair. [...] Encontrar a verdade 'em corpo e em alma' é o único fim da boca humana, o único 'trabalho' que deve prosseguir." E depois, Leitor: "Se tu não viste tudo que viste tu?"

Não se trata aqui, portanto, de explicar Mário Cesariny "às criancinhas naturais & estrangeiras", para o que sinto, a hora tão matinal e traiçoeira, faltar-me o engenho e a cama. De resto, "isso seria acordar tão tarde que equivalia a dormir outra vez" (disse-o Cesariny, "à propos" de Rimbaud). Resumirei então, afirmando que a intervenção, surrealista e não, do senhor Mário Cesariny ("ó meu deus de Vasconcelos?") terá sido sempre de primeiras classe e distinção. Mesmo quando ele foi bem educado.

Entre os poemas que se publicaram em português do século XX, passaram por ele alguns dos mais belos (belos como a Vida, como "inexplicáveis construções radiosas/prontas a circular entre a fuligem/de duas bocas/puras", belos como a "simples forma de um pulso"), alguns dos mais úteis (úteis como a Beleza, porque "É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia"), alguns dos mais necessários (necessários como o Jogo e o Riso), alguns que são das mais transparentes afirmações do Amor (transparentes como um corpo por dentro de outro) e, por vezes, alguns dos mais surrealistas (surrealistas como o Amor e Liberdade, sempre). Mas talvez esta contabilidade só interesse às pessoas "que não viajam": "Quem alcança viajar, mesmo só em terceira, vai sempre radiante. Não anda lá a prender-se com estas coisas."

Mas seja: obra que não se põe à mercê, não digo de um funesto premiozito Camões, mas sequer de consagração mais doméstica e de consenso na lapela, não é sobra que se deixe aos conterrâneos ("antes para tabaco que para cesariny"). E depois, o personagem (cuja existência é de resto incerta e misteriosa, pois já Herberto Helder disse que o surrealismo nunca existiu), o personagem, dizíamos, não ajuda, obstinado em caminhar pela Cidade "com nuvens pelos ombros", "indiferente ao triunfo aos castigos aos medos", fitando unicamente "o voo/tutelar da invisível armada". Como ainda há pouco se viu com o episódio da exposição sobre o surrealismo em Portugal, interrompida por morte propedêutica em Vila Nova de Famalicão. E assim se vê a força de M. C.. Que amargou sempre em primeira classe, mesmo quando o serviam já embrulhado para a posteridade (rimar com cartonado, museografado, embalsamado, etc.). Cesariny lá chegará, à posteridade, mas para ele será só uma viagem de regresso. O resto é literatura de papel.

E agora, duas ou três citações avulsas, em ramalhete final. A primeira vem de Teixeira de Pascoaes: "O sol bate-nos nos olhos como nós batemos a uma porta que não se abre." A segunda, compósita, tem letra de Lichtenberg, música de Cesariny e orquestração minha: a obra do poeta é como um navio de espelhos - se um macaco, convidado à viagem (mesmo em primeira classe académica), se olhar nela nunca verá um apóstolo. A última é de Mário António Cesariny Maria Lisboa: "A vida é bela. comecemos".

Amor, Liberdade, Poesia - Entrevista a Mário Cesariny de Vasconcelos

ÓSCAR FARIA
Sábado, 19 de Janeiro de 2002 [Mil Folhas]

Cesariny é um sedutor. Cesariny é um danado. O maravilhoso surreal intensamente livre. Conversa acontecida na inauguração da exposição "Do Surrealismo em Portugal".

FotoCesariny (n. 9/8/1923) gosta de posar. E de fumar. Muito. Cesariny tem o dom das palavras. Às vezes basta-lhe uma linha para construir um mundo: "Ama como a estrada começa". Outras, esse encantamento suscita contínuos estremecimentos: "longe dos jogos civilizados/ livres da hora da mãe e da filha/ jogamos fumo para uma bilha/ jogamos o pocker o king a vrilha/ jogamos tudo como danados". O maravilhoso surreal, ainda vivo, ainda intensamente livre atravessa uma conversa acontecida na inauguração da polémica exposição "Do Surrelismo em Portugal", que esteve patente na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão. Fala-se aqui de ditadura, de revolução e da dificuldade em cumprir o programa surrealista: "liberdade, amor e poesia". Também se recordam António Maria Lisboa e Pedro Oom, Vieira da Silva e Pascoaes: "Não tenho nada contra o Pessoa, mas para mim o Pascoaes é o velho da montanha, é o mágico". Cesariny é um sedutor. Cesariny é um danado.

MIL FOLHAS - A revolução é um dos objectivos essenciais do movimento surrealista. Como é que viveu o 25 de Abril de 1974?

MÁRIO CESARINY - Nós estávamos muito mal vistos pelo Salazar e pelos marxistas; tínhamos dois inimigos. Há uma carta do António Dacosta, que está em minha casa - não sei onde, espero que apareça - em que me conta a ida para Paris, em 1947, onde frequenta as reuniões do grupo surrealista com o André Breton e o Benjamin Péret. Eu sei que dizer isto pode parecer esquisito, mas acho que devo dizer: ele começa a explicar ao Péret o que se passa em Portugal - "Há o anti-fascismo, claro, mas ao mesmo tempo não podemos acusar ou denunciar os estalinistas por causa do fascismo imperante e porque o Salazar prende os comunistas todos". Péret, que sabia bem o que se passava em todo o mundo, disse assim: "Ai o Salazar prende os comunistas, pois faz o Salazar muito bem". Esta anedota é complicada, o que se subentende disto tudo, mas agora subentendam o que quiserem.

P. - Mas Breton também se aproximou do comunismo soviético...

R. - Em duas palavras lhe digo. Tive uma perseguição muito grande e muito chata do regime, porque descobriram uma maneira mais simpática e mais atroz de me chatear: fui dado como vagabundo na Polícia Judiciária de Lisboa, tinha lá o cartão... dado não, suspeito, suspeito de vagabundagem, que era também um termo que se aplicava a pessoas assim um bocado esquisitas. E, em nome dessa suspeita de vagabundagem, tive uma perseguição que só acabou no 25 de Abril, porque tudo aquilo era ilegal. Não sou um mártir nem um herói da luta anti-fascista, não sou, mas fui muito chateado, porque a qualquer hora, a qualquer momento, a qualquer ano, podia receber uma convocação da polícia: o senhor venha cá - uma coisa horrorosa. Isso só acabou com o 25 de Abril, porque tudo aquilo era ilegal.

P. - Chatearam-no muitas vezes?

R. - Não é chatear muito; é que eles tinham o poder de chatear sempre que quisessem. Até podiam deixar passar vinte anos sem chatear, mas ao fim de vinte anos lembravam-se: "Olha este, vamos chamá-lo". Era uma coisa sempre pendente em cima da cabeça, uma espada. Tinha medo de ir ao telefone, tinha medo de ir ao correio: não me tratavam mal, nem me batiam, mas era uma coisa muito chata, muito humilhante ir às apresentações. Sempre me deitei muito tarde e sempre me levantei muito tarde, o que para a polícia era horrível: "não trabalha", essas coisas. E há uma manhã em que a minha irmã Henriette me chama e diz: "Mário, acabou a ditadura" - "O quê?", "Acabou a ditadura". Saio para a rua com uma máquina fotográfica e durante quase um ano, não foi um ano certo, mas quase um ano, fosse qual fosse a hora a que eu me deitasse, às oito horas eu levantava-me de cabeça fresca. Percebe o que isto quer dizer...

P. - Quais eram as acções desenvolvidas pelos surrealistas contra o regime?

R. - Havia uma glória em Portugal, que era ser mártir, ser preso e ser torturado pelo regime: nós não achávamos que isso fosse uma coisa interessante, as nossas intervenções eram um bocado aparecer, dizer, sair logo e aparecer noutro lado: uma guerrilha. Como não podíamos fazer uma revolução - e não fizémos, claro -, a nossa revolução foi uma espécie de implosão, foi cá dentro que explodiu; para fora não podia sair, que a censura não deixava, foi por dentro. É pena que não se estude um bocado mais a condição dos surrealistas sob a ditadura, porque havia muita coisa interessante a saber nesse aspecto. E depois morreu o António Maria Lisboa, que, quanto a mim é o maior - dizei que sou eu, mas não sou, é ele o maior, só não tem versos tão bonitos, a poesia dele é uma coisa dura, agreste. Tivemos o atabafamento dos neo-realistas, que eram os realistas-socialistas e tivemos o atabafamento do Salazar: essas duas forças contra nós. As gerações que vieram a seguir, também não sabiam bem o que se passava... Foi um bocado uma ideia louca, porque falei com o André Breton e combinamos fazer uma pequena revista, mas era uma ideia um bocado louca, hoje vejo isso, era impossível tentar uma expansão pública, porque íamos logo para a choça e não estávamos muito interessados em ser mártires e heróis do estalinismo. O Cruzeiro Seixas foi para África, o António Maria Lisboa morreu, o Pedro Oom fechou-se em casa, como grande abjeccionista e, depois, o nosso grupo dispersou-se.

P. - Qual é a grande diferença entre o surrealismo e o abjeccionismo?

R. - Quem captou a grande frase foi o Pedro Oom, o criador do abjeccionismo: "Que pode fazer um homem desesperado, quando o ar é um vómito e nós seres abjectos". Ele refere-se à condição política. O que pode fazer esse homem? Pode suicidar-se, por exemplo. Pode sair para a rua, como os malucos, e matar uma data de gente. O que é que ele fez: meteu-se em casa. Uma vez fui a casa dele e fiquei gelado. Aquilo não era uma casa, era uma coisa despida de tudo, com uma flor de plástico no corredor: nada. O Pedro Oom desistiu de tudo e, no entanto, ele escreveu um ou dois dos mais belos poemas que se escreveram na altura e depois foi para casa e acabou daquela maneira: um suicídio se não pessoal em relação a tudo. Aparecia raras vezes. O abjeccionismo contagiou também um bocado o António Maria Lisboa. O António Maria Lisboa suicidou-se contra vontade, ele não queria realmente morrer, mas são as tais imprudências... foi uma primeira vez a Paris, mas a segunda vez que ia a Paris já não tinha um pulmão...

P. - Foi a morte que mais lhe custou na sua vida?

R. - Não digo isso, mas digo que o António Maria Lisboa era, de certeza, embora a sua obra seja diminuta, um ponto muito alto, se não o mais alto, de todos nós. Para mim, neste século que passou, houve duas grandes revoluções: a russa e a sureealista. A revolução russa acabou no que acabou, uma tragédia, um inferno. A revolução surrealista foi sabiamente soterrada pela sociedade. Primeiro ignorada pela geração que veio a seguir - o Cruzeiro Seixas é de outra opinião, muito optimista, eu não, eu acho que a revolução surrealista não é só os quadros que se põem nas paredes, pretendia-se uma revolução mesmo, muito mais utópica que a russa; agora os Magritte e os Max Ernst valem milhões, que é a maneira da sociedade abafar -, depois porque os actuais membros da Assembleia da República leram o bê-à-bá da literatura portuguesa pela história da literatura portuguesa do Óscar Lopes e do António José Saraiva. O Óscar Lopes era, e ainda é, membro do comité central do PCP, veja o que isto quer dizer, o outro era um espírito mais aberto, mas fez o jeito; de maneira que aprenderam todos o bê-à-bá do enterro do surrealismo e ainda hoje estão nisso.

P. - O que se pode fazer para dar a volta a essa situação?

R. - Não posso fazer nada. Só posso sair para a rua com uma metralhadora e matar uma data de gente.

P. - Cumprir o gesto de Breton?

R. - É. Sair para a rua de revólver. São uma coisa profética, os textos dele, porque isso é o que está a acontecer agora. Na América é dia sim, dia não: a criancinha entra na escola de metralhadora e mata os colegas todos e outras coisas assim. Outra coisa que pode ser um aspecto negativo é a droga, o Breton também a experimentou, mas aquilo atingiu um ponto tal, em grupo... É sabido e contado que uma noite, já não era em casa do Breton, era numa pequena moradia assim género "chateau", já havia um que andava atrás do Eluard com um punhal para o matar, foi pena, deixa lá [risos]f+b.f-b A sociedade apanhou todos os aspectos mais negativos: a droga e o matar a torto e a direito, que é o que está a acontecer, isso é profético.

P. - E quais são os aspectos mais positivos do surrealismo?

R. - É a luta desesperada pelo amor, pela liberdade e pela poesia: é isto. Parece que é uma trindade que vem substituir a liberdade, igualdade, fraternidade: liberdade, amor, poesia - é viver isso, é um bocado complicado, não é?

P. - Já falou de António Maria Lisboa. Outra figura que o marcou e que, em termos plásticos, chegou a comparar a Rimbaud, é Maria Helena Vieira da Silva...

R. - Essa é a velha história que também se prende com a exposição do surrealismo. Tenho um livro chamado "Vieira da Silva/Arpad Szènes, ou o Castelo Surrealista", onde até inventei uma expressão que gosto muito, que é "os surrealistas-copistas". Em Inglaterra, a pintura surrealista é toda metade Dali e metade Magritte, e dali não saiem. Em 40, antes de partirem para o Brasil, a Vieira da Silva e o Arpad fazem uma exposição no atelier deles, exposição tal que o João Gaspar Simões vai lá e faz uma pequena crónica em que fala no Breton e no surrealismo. Quando o António Pedro, estava a tentar lançar o dimensionismo - uma coisa que, se não se opunha, ignorava o surrealismo - com um companheiro se possível mais fascista do que ele, um tal Dutra Faria.

P. - A posição política do surrealismo é o anarquismo?

R. - É capaz de ser. Não, é um socialismo utópico. A última grande exposição organizada pelo André Breton, em Paris, chamou-se - e há um catálogo admirável - "L' Écart Absolu" [dedicada a Charles Fourier, a mostra teve lugar na Galeria L'Oeil, em1965] , quer dizer "afastamento absoluto", total, da política, da arte: desaparecer. Porque falhou: não falhou nos museus, mas o voto profundo dos surrealistas, que era também uma revolução social e a revolução total da linguagem e a revolução total das revoluções humanas: tudo isso falhou.

P. - No caso das relações sexuais, os surrealistas, sobretudo Breton, foram sempre muito rigorosos quanto à homossexualidade...

R. - Isso diz-se do Breton e é verdade, mas o homem era assim, o que é que se há de fazer. Mas lembro que nas célebres conversas sobre a sexualidade, o Péret diz não é contra nem a favor: "Não tenho nada com isso". E o Breton responde: "Se continua com esses termos eu vou-me embora". É uma opção pessoal. E no entanto, que ele tinha dessas coisas à czar... fazia excepções, como o Marquês de Sade. É evidente que o Breton terá tido os seus deslizes, como toda a gente. O [René] Crevel era homossexual e o Breton sabia-o perfeitamente, e o Crevel matou-se por causa do Breton, quando foi a história do congresso de escritores em prol da União Soviética, em que não deixaram falar o Breton; o Crevel - os textos dele são muito importantes - matou-se e deixou um papel a dizer "enojado". E também é discutível a história da "femme-enfant", a mulher-menina, que também é um mito do Breton; mas isso são mitos pessoais, não são obrigatórios: a culpa não é do Breton, a culpa é de quem aceitava a gritaria. Eu não aceito isso, pronto, acabou-se.

P. - Há alguns anos, em Madrid, Eugénio Granell, recentemente falecido, falava de si com grande apreço. Como se conheceram?

R. - O nosso encontro foi muito bonito. Conheci-o em Nova Iorque: havia uma exposição chamada "Exposição Mundial do Surrealismo", em Chicago. A Gulbenkian pagou e eu fui lá - parece que é assim, para se ir ao México tem de se aterrar primeiro em Nova Iorque, era assim, não sei se ainda é - e então ficámos uns dias em Nova Iorque e foi aí que conheci o Eugénio Granell, acho que ele ficou a gostar muito de mim, sobretudo porque eu era um português, isso foi em 1975, era o ano quente da revolução, que ele acompanhava muito pela rádio, porque lhe interessava. Eu fiz-lhe uma entrevista bastante grande, onde ele pôs os seus pontos de vista, e acho que ficou grato por eu lhe ter aparecido em casa e o pôr a falar do que acontecia e do que não acontecia, porque é evidente que o 25 de Abril teve muita importância para a própria Espanha. Tenho uma admiração muito grande por ele: na pintura considero-o um dos pintores mais originais do surrealismo espanhol. Não foi como o Picasso roubar à arte negra, que não é para pôr na parede - a arte negra é para cachimbos, é para fazer cadeiras, tem um sentido utilitário ou então tem um sentido sagrado, e o Picasso, com todo o seu talento, que é enorme, transformou aquilo numa coisa decorativa. E o Granell é muito original como surrealista espanhol, não foi à arte negra, nem às criancinhas, como o Miró - o Miró é muito bom, mas foi às criancinhas - e o Granell tirou aquilo lá não sei donde: para mim é o mais original, não digo que seja o maior ou o menor, isso não interessa. E depois, pessoalmente, teve uma vida admirável, de resistente: até ao fim, quis ser enterrado com a bandeira republicana: tudo isso é de uma coerência... e as perseguições que ele teve dos comunistas, porque ele era do POUM [trotskistas catalães]. E até no estrangeiro quem se encarregava disso era o Pablo Neruda, que pode ser um grande poeta, mas era um grande sacana ao serviço do comunismo soviético.

P. - Há um quadro seu em que homenageia Teixeira de Pascoaes...

R. - O Pascoaes é o grande poeta, não tenho nada contra o Pessoa, mas para mim o Pascoaes é o velho da montanha, é o mágico. Sabe que ele tinha lá no solar uma divisão em vidro no exterior, quando havia grandes tempestades devia ser uma coisa formidável, uma trovoada no Marão...

P. - Dizia-se que ele tinha poderes mágicos, druídicos...

R. - O João [um familiar de Pascoaes] contou-me e eu perguntei-lhe: "Você que idade tinha?", "Para aí 19 anos, vi-o sair do escritório com a cabeça em chamas". Isso é corroborado por um simples camponês que viu o Pascoaes vir não sei de onde e disse: "Quem é aquele homem que deita fogo pela cabeça?" Estava a carregar lá naquela coisa de vidro. Mas isto atira tudo para um terreno que as pessoas não gostam, cheira ao paranormal. A poesia dele - e talvez não propriamente os versos,"O Bailado" em prosa, por exemplo - é uma coisa formidável...

P. - "S. Paulo" é um texto notável...

R. - Desses o que ainda gosto mais é "S. Jerónimo e a Trovoada", porque é aflitivo, parece que ele estava lá. Não nego o talento poético do Pessoa, mas tornou-se odioso, porque já se ganha a vida à custa do Pessoa: é demais, já não pode ser. Nós temos grandes poetas desde os galaico-portugueses, não é? Isto acontece porque o Pessoa pegou lá fora, não é por outro motivo. Como pegou lá fora, então a saloiada toca toda a pegar no Pessoa nas universidades. O Camilo Pessanha não é inferior ao Pessoa; há muitos, o Sá-Carneiro...

P. - Foi por isso que escreveu "O Virgem Negra"?

R. - Não é contra ele, mas é contra a igreja dele. Isso tem uma segunda edição onde acrescentei mais duas cartas inventadas, mas muito giras.

P. - Na exposição tem um verso seu: "Ama como a estrada começa". Qual é essa estrada?

R. - Oh, aí é que está. Não sei, é com cada um. "Ama como a estrada começa" é o sentido da criação original, começa e vai...

P. - Falou nos antecessores, como Pascoes ou a própria Vieira da Silva. Actualmente quem é poderia ser visto na continuidade da tradição surrealista? Recordo, por exemplo, Álvaro Lapa...

R.- Se ele quiser entra à vontade, se não quiser não entra: o resultado é igual. E a Paula Rego, com certeza, essa tem a sorte de ter fama internacional; ela disse-me que está dentro. E entre os novos, novíssimos, o Álvaro Lapa. E parece que está a aparecer mais gente, veremos.

O Estranho Mundo de Nava

LUÍS MIGUEL QUEIRÓS
Sábado, 18 de Maio de 2002  [Mil Folhas]

Brutalmente assassinado em Bruxelas, onde residia, em Maio de 1995, Luís Miguel Nava viveu apenas 37 anos. Entre 1979 e 1994, publicou seis livros de poemas, agora reunidos num só volume, com prefácio de Fernando Pinto do Amaral e organização e posfácio de Gastão Cruz. Da poesia de Nava, diz o primeiro que ela continua a "destacar-se como um fulgurante meteoro no panorama poético português das últimas décadas". De facto, desde esse já longínquo ano de 1979, quando Nava publicou "Películas" - a sua obra de estreia, se descontarmos um livro de adolescência que depressa rejeitou -, é bem possível que a poesia portuguesa não tenha visto surgir nenhuma outra voz tão absolutamente singular.

No plano formal, essa singularidade afirma-se, desde logo, no recurso a uma construção frásica que se diria mais própria da prosa ensaística. Não que estes poemas tenham seja o que for de ensaístico, no sentido em que o poderíamos afirmar, por exemplo, dos textos poéticos de Fernando Guerreiro, ou mesmo, noutra acepção, dos de Ramos Rosa. O que aproxima a poesia de Nava do ensaio é apenas a utilização de frases extensas, pontuadas com uma correcção exemplar (do ponto de vista da prosa), muitas vezes providas de orações intercalares e generosamente guarnecidas de pronomes relativos. Quando se quer transmitir com precisão uma informação complexa, é natural que se privilegie um discurso deste tipo. E o universo de Nava é seguramente complexo.

Quem lê uma obra de divulgação de física quântica rapidamente se apercebe de que, no mundo invisualizável das partículas subatómicas, as nossas referências, os nossos parâmetros mentais, não só não ajudam, como atrapalham. Aos leitores de Nava, acontece o mesmo. Tal como o electrão, que se comporta como partícula ou onda consoante o modo como é observado, e nesse sentido pode estar em vários sítios ao mesmo tempo, também o corpo (e veremos que não apenas o corpo) do sujeito que fala nestes poemas viola sistematicamente o princípio da não ubiquidade. Mas a sofisticada sintaxe do poeta, no seu tom de descrição neutral, serve também, e um tanto paradoxalmente, para intensificar esta escrita e conferir verosimilhança à realidade subjectiva do inquietante mundo que Nava nos revela.

Cerca de um ano e meio antes de morrer, o autor participou num colóquio de homenagem a Eugénio de Andrade, no Porto, onde apresentou um texto chamado "O amigo mais íntimo do sol". Pelo título, pensar-se-ia em mais uma reivindicação do carácter solar da poesia em causa, à qual Nava, aliás, já dedicara um pequeno volume em 1987. Mas a tese central desse texto era outra: o que Nava nele procurou demonstrar foi a extensão, na poesia de Eugénio, dessa prática que consiste em fazer convergir numa só sensação impressões colhidas através de diferentes sentidos. Nava sugeria a influência indirecta de Baudelaire e da sua teoria das correspondências, e sobretudo a de Rilke, para quem o poeta devia mesmo exercitar esta sinestesia radical, visando o dia em que (a tradução é do próprio Nava) "o seu êxtase contido o leve de um único salto e de um só fôlego através dos cinco jardins".

O que nos importa não é tanto a pertinência da tese de Nava sobre Eugénio, que, de resto, parece indiscutível, mas a suspeita de que não terá sido por acaso que escolheu precisamente este ponto de vista. É que, em certa medida, também ele é, por analogia, uma espécie de alucinado sinesteta, como o notou já a ensaísta Rosa Maria Martelo num texto publicado no nº3 da Revista "Relâmpago", no qual fala de uma "hipersinestesia, radical e absoluta (...), onde é possível ver uma uma releitura ampliada do 'desregramento de todos os sentidos' de Rimbaud". No estranho universo de Nava, tudo se interpenetra e se funde, ou, para ser mais exacto, tudo é sentido como se assim fosse. E neste tudo cabe o corpo, da pele (ou mesmo da roupa que a cobre) às mais recônditas vísceras, cabem os objectos do dia-a-dia e as paisagens, o mar e o céu, cabem todos os tempos, do presente actual (perdoe-se o aparente pleonasmo) a todos os presentes que a memória conserva, cabem os afectos e as palavras, a consciência e o coração. Esta porosidade geral das coisas, que permite que tudo comunique entre si, não supõe apenas um universo que não se rege pelas leis da física clássica, mas implica igualmente uma literal materialização das sensações. Em Nava, a memória é, também, um objecto físico, e o coração tomado em acepção metafórica não é menos palpável do que o órgão que bombeia o sangue.

"Películas" conquistou o prémio de revelação da APE em 1978. Nava tinha 21 anos. No entanto, este livro mostra já tudo o que virá a confirmar-se como essencial na sua escrita. Veja-se este excerto do poema "Apenas a folhagem": "(...) Da árvore encarnada, meio dentro da memória, apenas a folhagem salta pelos olhos e se espalha pelo rosto, o que me põe a braços [a simpatia por expressões idiomáticas de uso corrente é outra marca desta escrita] com as palavras. As raízes entram-lhe no sangue, abrem-lhe internos focos de paixão, não tarda que penetrem pela terra a cujos intestinos vão buscar com que saciar-lhe os olhos (...)". Fernando Pinto do Amaral atribui a Nava "uma extrema criatividade metafórica". Todavia, é possível que metáfora não seja a palavra indicada para estes textos minuciosamente descritivos. Ou pode ser que estejamos perante uma só metáfora, da qual decorrem todas as outras .

O próprio Nava inclui, em "Películas", uma "ars poetica" que consta de um só verso: "O mar, no seu lugar pôr um relâmpago". Não se trata apenas de atestar que um relâmpago pode evocar o mar. Num momento definido, e de determinado ponto de vista, mar e relâmpago são, para Nava, coisas correspondentes e comutáveis, no sentido matemático do termo. A intrincada rede de correspondências que esta poesia tece nada tem de aleatória, ainda que o seu exacto alcance esteja irremediavelmente vedado ao leitor, justamente porque não se reduz a uma mera e partilhável construção mental. Isso mesmo se sugere num dos mais notáveis poemas de "Rebentação" (1984), intitulado "O Rei": "O mar está-nos no corpo; enquanto alguém/ a quem o coração serve de rei/ dispõe no tabuleiro as outras peças// rebenta-lhe na mão; há entre as peças/ e o mar cumplicidades de que só/ quem joga estima o peso em cada lance."

Em "Rebentação", que talvez seja o melhor livro de Nava, o mundo que começara a revelar-se em "Películas" é levado ao seu apogeu. É um mundo que conserva ainda uma energia por vezes tocada de júbilo. A partir de "O Céu Sob as Entranhas" (1989), se quisermos manter a analogia com as ciências físicas, a acção da segunda lei da termodinâmica começa a tornar-se devastadora e o cenário abeira-se do caos. "Não parece, realmente, fácil a aceitação de uma poesia de trevas - e foi nessa direcção que inexoravelmente caminhou a de Luís Miguel Nava", escreve, com inteira justiça, Gastão Cruz. E, nesse caminho, as próprias "regras" e propriedades físicas do mundo de Nava vão-se alterando. Nos primeiros livros, a dureza geral das coisas, para citar Vítor Matos e Sá, tornava-se elástica e fluida. "(...) Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao dar por acabado o livro de que este texto pode, entre outros, ser a introdução, mais me fascinam (...)", escreve em "Rebentação". Já nos dois últimos livros, como se essa elasticidade tivesse sido levada a limites insuportáveis, tudo se fragmenta e estilhaça. O poema "Estacas", de "O Céu Sob as Entranhas", principia assim: "Os meus ossos estão espetados no deserto, não há um só no meu corpo que lhe escape./ Cravados todos eles na areia do deserto, uns a seguir aos outros, alinhados./ Seria absurdo falar-se de esqueleto". E "Borrasca", de "Vulcão" (1994), abre com esta frase, que nos servirá de fecho: "Estalara-lhe de tal forma o eu que o próprio nome era uma ferida, através da qual a carne supurava".

A Sombra de um Homem

JORGE SILVA MELO
Sábado, 17 de Janeiro de 2004 [Mil Folhas]

Tento falar a amigos bem mais novos do Eduardo Guerra Carneiro, amigo que escolheu a morte uma noite destas. Tento falar-lhes dos jornais, dos jornalistas, da arrastada boémia, da poesia vivida, dos cafés, das quatro da manhã no Bolero ao Martim Moniz, dos encontros que tantas vezes tivemos no Largo que, para mim, se chama da Misericórdia, mas que passou a chamar-se "do cauteleiro". "Não te lembras dele? Encontrávamo-lo às vezes quando saíamos d''A Capital', jantava cedo e sozinho, falávamos sempre, não te lembras?" Só com o João Calvário, amigo dos tempos do Porto, anos 60 ainda, princípio, rapazes obrigados a gravata, Belas-Artes e jornais por perto, consigo lembrá-lo nestes primeiros dias do ano.

E eu gostava do Eduardo, de o encontrar ao fecho dos jornais, livros debaixo do braço, "então e livros?", gostava de falar de alheiras e de batatas às rodelas ali na Casa Transmontana das Escadinhas do Duque, falar de filmes, "tens visto o Vítor Silva Tavares?", "não vais à Abril em Maio, vou lá lançar um livro", falar de crónicas ("eu mando-te o meu livro"), "e os jornais?".

Era mais velho, vinha de outros mundos, um surrealismo libertário que aqui por Lisboa descende do iluminado Gomes Leal, vinha do Norte, vivia de jornais, nem melhores nem piores do que estes, prosa clara, sem arrebiques, de vez em quando arrebatada por surpreendente imagem, vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de uma desarrumada ligação entre vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso e estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempre de província apostrofando a desordem da cidade, Rimbaud no bolso, a prosa de Pacheco, o prosaísmo inflamado de Cesariny, foi ele quem, no Monte Carlo há muitos anos, me deu o António Maria Lisboa que havia, livro minúsculo da Guimarães.

E os seus livros? Livros dispersos por editoras fugazes, tenho ali alguns, uns que ele próprio me deu e assinou. Não os abri ainda depois da sua morte, nem os olhei sequer: a sombra do homem que ele foi, do amigo de conversas, do jornalista, do companheiro é ainda demasiado opaca. Ou é o verso apenas a sombra de um homem?

Não leio Sophia sem lhe ouvir a implacável voz. E corei de vergonha quando, no outro dia, ouvi um fado arrebicar-lhe o helénico andante. Ouço de vez em quando uma cassete em que Paul Celan lê os seus versos de uma voz impessoal e tímida - e não voltei a ler-lhe a poesia no papel. A presença da vida, esse opaco indizível, esse corpo faz com que os versos escritos se transformem em pegadas, impressões apenas digitais, restos de um corpo, traças de uma voz. É-me tão difícil ler a poesia de quem eu conheci de perto, ficar-me perante o silêncio. Ouço-lhes a voz, as dobras da roupa, o tilintar das chaves no bolso. E o Eduardo, que poeta era? A intensidade da sua vida, a balbúrdia da sua noite, a clareza solidária do seu olhar, a dispersão com que foi tratando dos seus versos e dos seus jornais, o carinho com as correcções e a súbita imagem com que, mordaz ou terno, se aproximava de nós, não me permitem lê-lo de leitura branca como a poesia havia-de ser lida.

Vejo-o e gosto dele, vejo-o e converso com ele, jornalista que nos descobriu, o primeiro a falar do João César Monteiro, o primeiro a escrever sobre o Luís Miguel Cintra ("O Luís é um truta", escreveu e tantas vezes me lembrei disso, vindo como vinha de homem de Trás-os-Montes e peixe de rio), o meu companheiro solitário que decidiu não viver mais.

Havíamos de lhe juntar as poesias, de lhe ler os artigos de jornal, daqui a um ano fazer sair um livro com muitas coisas, livro desarrumado e incerto, livro dele, livro com as sombras deste homem de quem gosto, que conheci e mal conheço, de quem fui amigo e pouco sei, com quem sabia que poderia contar, homem e homem de letras que agora morreu.

É que gostava, uma noite destas, de conseguir falar dele aos meus amigos mais novos, a esta gente com quem ando, ler-lhes os versos e a ternura, abraçar ainda este homem de uma cidade que já não será nunca a que ele, insubmisso, quis que fosse.

Havemos de o fazer?

©2002  Bibliomanias/Dos Jornais