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"Seja
qual fôr o lugar que se atribua, na literatura portuguesa, ao
assombroso novelista e panfletário, ninguém pode julgar como um
entusiasmo apenas passageiro o crescente culto de Camilo. Há quem
estranhe que êsse culto seja mais intenso que o de Camões e quem
cite outras poderosas individualidades da nossa literatura, rivais
da sua glória, como Herculano e Antero. Sem discutir a justiça de
semelhantes reparos, o que não se pode apoucar é a impressionante
grandeza e a emoção que se desprende da obra e da vida de Camilo.
Irregular sob o ponto de vista moral, torturado pela nevrose,
sacudido entre o riso do sarcasmo e o chôro convulso, criador das
mais ideais figuras de mulher e dos tipos mais repelentes ou
risíveis, possuindo a imaginação dum grande romancista e
novelista, a erudição dum investigador paciente, a visão do
historiador, a análise que pinta os vícios e as paixões, e a
linguagem mais rica e mais expressiva, dentro dos moldes
tradicionais - Camilo parece a um tempo romântico e realista, mas
não pertence, na verdade, a escola algma. A sua existência cativa,
tanto como as suas obras, os que estudam tão poderosa e excepcional
figura. O epilogo macabro do primeiro sentimento, desenterrando o
cadáver da mulher, o adultério, a loucura dum filho e a
devassidão do outro, a cegueira, o suicídio, e, antes e depois da
morte, a indiferença duma sociedade que só agora vai acordando
para a evocação carinhosa do grande escritor, contribuiram para
tornar cada vez maior o número dos camilianistas, a sua devoção
fervorosa, inquieta e absorvente, em nada inferior à que, na
França, por exemplo, manifestam os coleccionadores e admiradores de
Stendhal e de Balzac". [Extracto
do prefácio ao "Catálogo de Obras Antiga e Modernas.
Edições de luxo, tiragens especiais, e também de uma das mais
completas Camilianas onde se encontram as principais raridades do
grande Mestre", Livraria de João d'Araujo Moraes, Lda, 1924 e
posto a venda em 8 de Janeiro de 1925]
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A paixão por e sobre Camilo, sua
vida, geneologia, bibliografia e obra, é das mais fascinantes para
um neófito amante do livro. Quando o novato entra em contacto com a
vastidão da obra do Mestre, e sobretudo com a devoção de
camilianistas fervorosos, fica esmagado pelas polémicas
bibliográficas a seu respeito, pelos curiosos episódios em torno
da compra ou aquisição de algumas das suas obras, pela dificuldade
imensa em reunir algumas peças da sua imensa colecção, em suma
perante a questão camiliana. Certo é que, desde sempre - e até
hoje - a polémica entre os adeptos de Camões, Camilo, Queiros,
Herculano, dividiu os homens da cultura portuguesa. Mas,
seguramente, nunca o culto de Camilo foi esquecido ou deixou de ser
renovado. Assim, a par da imensa obra do escritor, existe uma outra,
de igual estimação, sobre o Mestre: ele é polémicas em torno de
pseudónimos usados por Camilo; debates sobre anotações de
exemplares que lhe pertenceram; interpretações várias sobre as
suas cartas, paixões, polémicas, edições fac-similadas abusivas,
retratos, num nunca mais acabar de trabalhos sobre a admiravel obra
do escritor. Alguns dos mais eruditos e devotos Camilianos, como
Silva Pinto, João de Meira, Maximiano de Lemos, Alberto Pimentel,
Manuel dos Santos, Henrique Marques, Custódio Jose Vieira, Júlio
Dias da Costa (citados de: "A continência do galucho",
por Jorge de Faria, in Catálogo da biblioteca que pertenceu ao
distinto homem de letras e grande camilianista Dr. Júlio Dias da
Costa, .....), Alexandre Cabral, Carmo e Costa, etc.. foram camilianistas
exemplares, apaixonados e sinceros. Uma outra maneira de conhecer o
assombroso da questão camiliana, pode ser feita através dos
leilões de livrarias e bibliotecas particulares, que ao longo dos
anos foram feitos. Sendo de grande dificuldade uma exaustiva Bibliografia
Camiliana, deixemos meia dúzia de obras sobre o tema, para
que o amante dos livros, possa recolher as informações que
desejar. - "Achega para
uma bibliografia das bibliografias Camilianas",
Lisboa, Biblioteca Nacional, 1990, 33 p.
- CABRAL
(ALEXANDRE) - "Dicionário de Camilo Castelo Branco",
Caminho, 1989 - CABRAL
(ANTÓNIO) - "Camilo de perfil" (1914); "Camillo
desconhecido" (1918) e "As polémicas de Camilo"
(1925) -
[Camilo C. Branco ?] - CATÁLOGO da preciosa
Livraria do eminente escriptor Camillo Castelo Branco, ...,Mattos
Moreira & Cardosos, Lisboa, 1883, 4-80 p.
- "IN MEMORIAM
DE CAMILLO" - Edição de Ventura Abrantes, Lisboa, 1925
-
LIMA CALHEIROS (JOSÉ PEDRO DE) - "Catálogo das obras de
Camilo Castelo Branco, Visconde de Correa Botelho", Porto, 1889
[e ainda de ...] "Additamento e continuação das obras de
Camillo Castelo Barnco, Porto, 1890
-
MARQUES (HENRIQUE) - "Bibliographia Camiliana", 1ª parte,
Lisboa, 1894 -
MARQUES (HENRIQUE) - "As tiragens especiaes da obra de Camillo",
in A Revista, Porto, 1903-1904
-
MOTA (JOÃO XAVIER DA) - "Camilliana. Colecção das obras de
Camillo Castelo Branco", Rio de Janeiro, 1891
-
NEVES (ALVARO) - "Camillo Castello Branco - Notas à margem em
vários livros da sua biblioteva recolhidas por ...", Lisboa,
1916, 161 p. - NEVES (ALVARO)
- "Estudos Camillianos - Bibliographia e Bibliotheconomia",
Lisboa, 1917, 16 p. - PIMENTEL
(ALBERTO) - "O romance de romancista" (1890) e "Os
amores de Camillo" (1899)
-
SANTOS (MANOEL DOS) - "Revista Bibliografica Camiliana",
Lisboa, 1916, III vols
-
SANTOS (JOSÉ DOS) - "Descrição bibliográfica da mais
importante e valiosa Camiliana que até hoje tem aparecido à venda
no mercado compreendendo tôdas as obras originais, traduzidas ou
prefaciadas por Camilo Castelo Branco tanto em suas primeiras como
em susequentes edições"", Lisboa, 1939
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“Dizia um filósofo humanitário a certo povo infeliz: ‘Sede melhores,
e vós sereis mais felizes’. E o povo respondeu ao filósofo
humanitário: ‘Fazei-nos mais felizes, e nós seremos melhores” [C.C.B.,
in A Verdade, 1856]
“Que
me importa a mim o futuro? Caído por este desfiladeiro da vida , com
os olhos fitos lá em baixo na terá negra do túmulo, - que tenho eu
contigo, futuro? (…)
Eu
sou do passado: ficou-me lá o espírito; amo o tempo que foi: vivi
então mil séculos num instante – amarguei-os, mas que importa?” [C.C.B.,
in O Nacional, 1948]
“É
inegável que somos europeus, e até podemos avançar que se fala de
nós lá fora como um povo civilizado (…) Caminhamos airosamente na
via láctea do progresso, porque as estradas cá em baixo o mais que
podem é pôr-nos em contacto com o progresso dos antípodas por meio
dos abismos insondáveis que o macadame aperfeiçoou (…)
Temos tudo quanto podem ambicionar os netos daqueles que
civilizaram mundos novos. Só nos falta – diga-se a verdade sem
presunção – falta-nos uma pequena coisa, que faça os homens bons:
falta-nos a virtude e a moral; falta-nos o respeito à lei, e a lei
que deva respeitar-se; falta-nos esse quasi nada que faz dum povo de
traficantes e de corruptos uma sociedade de irmãos e amigos “ [C.C.B.,
in O Portuense, 1853] |