BIBLIOTECA DE D.MANUEL II

 

 

 

Dr. JOAQUIM DE CARVALHO
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[... BIBLIOTECA DE D. MANUEL II]

[in prólogo a MONUMENTOS DE CULTURA E DA ARTE TIPOGRÁFICA PORTUGUESA DO SÉCULO XVI EXISTENTES NA BIBLIOTECA DE D. MANUEL II, Lisboa, 1948] 

Nunca esquecerei as horas breves de regalo que passei em Vila Viçosa no folhear de alguns livros do Rei D. Manuel II. Conto-as entre as mais agradáveis no já aturado trato que a Boa-Fortuna me permite manter desde a adolescência com livros de vária casta, índole e feitio. 

O livro, é, porventura, um dos maiores tóxicos do civilizado, envenenando-o e, sobretudo, afastando-o de si próprio e do convívio com as coisas simples da Natureza, fora das quais a simplicidade não raro faz figura de impostora. Não há dúvida, pelo menos para mim, que começo a dar-me conta da inutilidade da maior parte deles, bem entendido depois de os ter visto e percorrido, quanto mais não seja em diagonal; mas descobrem às vezes coisas agradáveis, e os de Vila Viçosa, os do Rei D. Manuel II, claro está, revelaram-me duas coisas que raras vezes se oferecem juntas. Descobri em primeiro lugar um Homem que viveu intimamente, em perfeita lealdade consigo mesmo, o juramento que prestara ao País de o servir como Monarca Constitucional e na melancolia do exílio, em vez de deixar mirrar a alma na estreiteza corrosiva do ressentimento e da desforra, procurou alegrá-la na convivência dos livros, os «amigos silenciosos, como ele próprio disse, junto dos quais se aprende a grande lição da vida». E descobri, em segundo lugar, ou mais própriamente, conheci de visu, os livros de um bibliófilo da mais pura e devotada afeição.

Do Homem, embora seja de atractiva simpatia o eflúvio da sua personalidade, e do Monarca, não é esta a hora de falar. Não assim do Bibliófilo, que está patente e franco nas páginas dos «Livros antigos portugueses», que deu ao prelo com requintes de bom gosto e de minúcia discritiva, e, sobretudo, nos livros que reuniu, amou e cuidou com tão estremado zelo que às vezes mais parece carícia de amante voluptuoso.

Os livros de um bibliófilo de raça nunca são os livros de um leitor que somente pretenda desenfadar-se e também não são quase nunca os do investigador erudito, que mal tem tempo para fruir o prazer vagaroso da leitura por todo se dar à indagação daquela espécie de verdades, de erros, de verosimilhanças e de ilusões, que às vezes se topam nas páginas impressas ou manuscritas e tecem com sorte vária a narrativa do Homem nas suas relações com a Terra, com o seu semelhante e com os seres ideais, como a Beleza. Têm sua «história» que lhes é própria, possuem outro sentido e existem para outros fins.

Cada livro que o bibliófilo arruma na estante, no lugar próprio da colecção, tem sempre uma «história», às vezes movimentada e divertida como as partidas de caça, outras vezes repousada e soporífera como o chamado desporto da pesca à cana, que eu imagino ser o símbolo da união da paciência negligente ao proveito sem esforço. A conversação íntima para que eles convidam também nada tem de comum com a nomeada dos livros que andam na mão de toda a gente. Suscitam outros pensamentos e falas, e isto, com ser muito é quase nada perante a variedade das emoções, da alacridade do entusiasmo ao travo da renúncia e dos sacrifícios, que fazem de muitos deles pedaços de alma e projecção espiritual de quem os reuniu. Sejam de reis, de milionários, ou de remediados que tudo sacrifiquem ao prazer, às vezes maníaco e não raro repreensível, da posse ciumenta, ali à mão, do livro raro, do informe desconhecido, da prova decisiva que os outros buscam e ignoram, os livros dos bibliófilos nunca são os livros de toda a gente e sempre têm que contar. São sempre os livros de alguém, e como os indivíduos de gente limpa deve saber-se de onde vêm, e possuem uma genealogia, constituída pela raridade, pela sumptuosidade das enca dernações ou ainda pelo pertence dos sucessivos possuidores. Oh! A deliciosa responsabilidade de afagar livros raros oferecidos por grandes nomes, com o encargo moral de os transmitir por morte a quem seja digno de os apreciar e conservar!

Os livros do Rei D. Manuel II não se furtam à lei geral. Têm, necessàriamente, a sua história anedóctica e para quem a conheça eles irradiam ainda o encanto que acompanha o gosto de recordar. Tudo isto, porém, me está vedado, por desconhecer particularidades e episódios da sua aquisição. Só posso ver neles o que objectivamente mostram, ou seja, do lado do organizador, o seu amor requintado do livro, a satisfação de fruir docemente pela evocação alguns ideais e a devoção patriótica, e do lado dos escritos que reuniu, o valor histórico e a dimensão cultural.

O amor do livro é, com efeito, a primeira coisa que se desprende desta livraria. D. Manuel II foi coleccionador de certas espécies de livros, e o prazer de coleccionar obriga a pôr o livro raro ao lado do vulgar, mas no seu espírito o coleccionador viveu subordinado à disciplina do bibliófilo amador da beleza gráfica, isto é, das edições de bom papel e das encadernações esmeradas. Claro que o amor do livro não é sinónimo do amor das letras, mas só merece o qualificativo de bibliófilo quem sabe associar o livro à encadernação, isto é, o valor intrínseco das páginas ao sinal externo do valimento, e preza nas linhas impressas o apuro da perfeição gráfica ou o fulgor que lhe emprestam certas verdades ou sentimentos. Quem assim não procede, é bibliómano, não bibliófilo. Sob este aspecto a sua livraria é lição educativa de bom gosto, sóbrio, fino e tão discreto que, suspeito, nenhum outro bibliófilo português se lhe compara na veneração delicada com que preservou certas páginas, mediante o jogo acertado do encaixe de duas encadernações, não só da profanação das mãos incultas como até do atrevimento dos próprios olhares inexpertos.

Amou os livros pela beleza da apresentação, a qual aliás nem sempre corresponde ao merecimento intrínseco, mas amou-os acima de tudo pelo objecto, isto é, pelos assuntos de que se ocupavam e pelo potencial de evocação que continham. Para a sua sensibilidade, os livros que assinalavam com o pertence valiam acima de tudo como expressões de épocas ou de acontecimentos que lhe eram agradáveis ou como portadores da centelha dos ideais que prezava e constituíam como que a estrutura da sua personalidade política e moral.

Esta é, com efeito, a nota característica da sua livraria. Dispendeu milhares e milhares de libras e de escudos, não para acumular livros de omni re scibili, passeando distraídamente a curiosidade pela vastidão dos saberes, mas pelo contrário, a exemplo do primeiro grande bibliófilo da sua família, D. João IV, para aumentar as fontes informativas dos assuntos que lhe interessavam. Tirante os livros de consulta e de informação histórico-bibliográfica, que atestam o cuidado com que procurava esclarecer-se e a probidade com que policiava os seus juízos e afirmações, o conjunto dos demais livros como que se reparte naturalmente pelas seguintes colecções: quinhentista, camoneana, setecentista e das lutas liberais -, ou por outras palavras mais significativas, o testemunho histórico e literário do maior século da nossa História, a expressão mais poética e universalista do sentimento pátrio, que outra coisa não são os Lusíadas, a ascensão da Casa de Bragança ao trono e a luta pela Cata Constitucional.

Há nestas devoções bibliográficas como que o símbolo do que D. Manuel II mais prezou: o reinado do Venturoso, a ponto de haver pensado em escrever a biografia do seu homónimo do século XVI,  como assegura Ricardo Jorge, e a Pátria, que amou com fogo interior. Foi pensando nesta maneira de sentir Portugal, mais pela cabeça e pelo coração que pela  gana, sem aqueles rasgos e gostos que fizeram de seu Pai o mais terrantês dos Braganças, que D. Manuel II organizou a sua livraria, sem dúvida a mais notável de todas as livrarias particulares no que toca a livros portugueses do século XVI impressos em Portugal. Nascida ao calor do sentimento pátrio e crescendo sob o impulso de sentimentos que se afervoraram na meditação melancólica do exílio, ela teve o destino digno do seu egrégio criador, do pensamento que a alentou e do préstimo com que generosamente a quis dotar.

Do préstimo, com efeito, porque se os livros de D. Manuel II não chegam a constituir um instrumento completo de trabalho - e quantas livrarias públicas, em face das actuais exigências da investigação crítica, podem orgulhar-se de o serem cabalmente numa só zona do saber? - eles formam, indiscutivelmente, o mais copioso e importante núcleo de pontos de partida para o estudioso do nosso século XVI, especialmente da cultura histórico-literária e ético-religiosa da primeira metade do grande século. Há assuntos ainda não tratados condignamente pela nossa erudição cujos pontos de partida, e em parte também a informação capital, têm de ser procurados no legado benemérito de D. Manuel II. Tais se me figuram o estudo do ensino da Gramática anteriormente à introdução dos métodos humanísticos ; a estrutura e anelos da sensibilidade religiosa anteriormente ao Concílio de Trento ; o ambiente cultural do Paço da Rainha D. Leonor, viúva de D. João II, sem o qual se não podem compreender alguns aspectos do teatro de Gil Vicente; a obra de alguns «ignorados» e que parecem ter sido como que mentores do seu tempo, designadamente o jerónimo Frei António de Beja, e, finalmente, a ilustração do livro e a evolução dos recursos da arte tipográfica das nossas oficinas de Quinhentos. Basta tão brevíssimo indículo para mostrar a imensa riqueza informativa desta livraria, sem par, sob este aspecto, com as demais livrarias. Será muito exorar os jovens estudiosos, que se sintam atraídos para os estudos severos da erudição crítica e da história das ideias, a que atentem nos « Livros antigos portugueses » do Rei D. Manuel II e deles extraiam aquela parcela de verdade ou, pelo menos, de remissão de ignorâncias, que encerram ou comportam?

A paixão dos bibliófilos do século passado pelos livros de Cavalaria - outro tema a estudar entre nós e para o qual a Livraria oferece também preciosos espécimes - foi um dos impulsos que serviu a Ciência das Letras e depurou a compreensão da própria sensibilidade medieval ; será, porventura, demasiado desejar que a paixão de D. Manuel II pelos nossos livros de Quinhentos contribua para a renovação dos estudos do nosso século XVI, de uma banda, assaz pejados de lugares comuns sem fundamento, e da outra, com clareiras que urge povoar quanto antes? A mera existência desta Livraria para sempre tornará grata a memória do seu fundador no afecto dos estudiosos portugueses. Cumpre, porém, que a incomparável benemerência se reanime com o alento que lhe deu existência e vida e se converta num instrumento ao serviço dos ideais que o seu fundador prezou.

A cultura pátria não se serve monòdicamente, e quanto mais diversificadas forem as suas vozes tanto melhor para a expressão do nosso génio nacional, feito de coincidências e de contrastes, de saudades e de esperanças, de descoroçoamento e de tenacidade, de ternura e de varonia, sempre à chapada do Sol, que se gera a modorra e o suor também gera a alegria de viver e o horror saudável da soturnidade.

Não seria acaso excelente serviço divulgar em nova edição alguns dos livros únicos e dos de maior raridade existentes na Livraria. e, principalmente, tornar acessível às bolsas modestas e dar prosseguimento à obra de erudição bibliográfica que D. Manuel II iniciou com a publicação dos Livros antigos portugueses e a morte lhe não deixou laçar a cabo?

Isto seria o melhor preito que poderia prestar-se à memória do insigne e do mais benemérito dos bibliófilos portugueses -, dos bibliófilos, repito, que não dos coleccionadores, ainda que alcancem a estatura de Monsenhor Hasse, no século XVIII, e de Aníbal Fernandes Tomás, falecido já no nosso tempo, e muito menos dos bibliómanos, com a fúria armazenista de Pereira Merelo.

Como Ricardo Jorge, em Setembro de 1933, também digo, volvidos quinze anos, «que D. Manuel II seria o primeiro a rejubilar com essa tarefa, se por fortuna vivera». Oxalá assim possa ser, e seja !


   ©2003  Bibliomanias/Biblioteca de D. Manuel II