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Cronologia
1893 Nasce a 7 de Abril em S. Tomé.
1895 Nasce o irmão António Sobral de Almada
Negreiros.
1896 A mãe morre.
1900 É internado num colégio de jesuítas em
Lisboa. 0 pai vai viver para Paris.
1913 Faz a primeira exposição individual, de
desenhos. Escreve "Rondel do Alentejo", que será
publicado em 1922 na "Contemporânea" 2.
1914 Publica "Silêncios" no
"Portugal Artistíco" 2.
1915 Publica "Frisos" em "Orpheu
1". Escreve para o "Orpheu" 3 "A Cena
do Ódio", que será publicada parcialmente em 1923, como
separata da "Contemporânea" 7, e integralmente na
terceira série das "Líricas Portuguesas", organizada por
Jorge de Sena em 1958.
1916 Publica em folhetos o "Manifesto
Anti-Dantas e por Extenso", o manifesto "Exposição
Amadeo de Souza-Cardoso, Liga Naval de Lisboa" e o poema
"Litoral".
1917 Publica os livros "K4 0 Quadrado
Azul" e "A Engomadeira". Realiza a Conferência Futurista no Teatro República.
Publica, no número único do "Portugal
Futurista", o "Ultimatum Futurista às Gerações
Portuguesas do Século XX", o poema "Mima-Fataxa -Sinfonia
Cosmopolita e Apologia do Triângulo Feminino", e
"Saltimbancos (Contrastes Simultâneos)".
1918 Faz a coreografia dos bailados "A
Princesa dos Sapatos de Ferro" (em que também dança) e
"O Jardim da Pierrette", cujo programa publica em folheto.
1919 Vai para Paris, onde permanece ano e meio.
1920 Regressa a Lisboa. Faz uma exposição individual.
Escreve e ilustra o jornal manuscrito"parva"
onde inclui os poemas "Mon Oreiller" e "Histoire du
Portugal par Coeur et au Hasard écrite par Moi pour Mes 4 Cousines".
1921 Entra como actor no filme "0
Condenado". Colabora com artigos, contos e desenhos sobretudo
no "Diário de Lisboa". Realiza e publica a conferência
"A Invenção do Dia Claro".
1922 Inicia a colaboração na revista
"Contemporânea" com as palavras e os desenhos de "Histoire
du Portugal par Coeur", datado de Paris, 1919. No n.º3 publica
um excerto de "0 Menino d'Olhos de Gigante".
1924 Publica "Pierrot e Arlequim".
1926 Realiza e publica a conferência
"Modernismo". Publica "A Questão dos Painéis".
1927 Inicia uma estada de cinco anos em Madrid.
1928-9 Escreve "El Uno. Tragedia de la
Unidad", conjunto das duas peças de teatro "Deseja-se
Mulher" e "S.O.S.".
1932 Regressa a Lisboa. Realiza e publica a conferência "Direcção
Única".
1934 Realiza e publica a conferência
"Cuidado com a Pintura". Casa com a pintora Sarah Affonso.
Nasce o filho José Afonso de Almada Negreiros.
1935 Lança uma revista, "Sudoeste", de
que escreve integralmente os dois primeiros números dos três que
saem, incluindo no n.º3 o poema "As Quatro Manhãs".
1936 Realiza a conferência "Elogio da
Ingenuidade ou as Desventuras da Esperteza Saloia", depois
publicada em Janeiro de 1939 na "Revista de Portugal" 6.
1938 Publica "Nome de Guerra", romance
escrito em 1925. Realiza e publica a conferência sobre Walt
Disney "Desenhos Animados, Realidade Imaginada". Termina
os vitrais da igreja de Nossa Senhora de Fátima.
1940 Nasce a filha Ana Paula de Almada Negreiros.
1943 Escreve os ensaios "Ver".
1944 Realiza a conferência "Descobri a
Personalidade de Homero".
1945 Termina os frescos da Gare Marítima de Alcântara.
1948 Publica "Mito-Alegoria-Símbolo - Monólogo
Autodidacta na Oficina de Píntura".
1949 Termina os frescos da Gare Marítima da
Rocha do Conde de Óbidos. Representa-se pela primeira vez
"Antes de Começar" no Teatro Estúdio do Salitre.
1950 Publica "A Chave Diz: Faltam Duas Tábuas
e Meia de Pintura no Todo da Obra de Nuno Gonçalves".
1952 Publica o poema "Presença",
datado de 1921-1951, na revista "Bicórnio".
1954 Pinta o retrato de Fernando Pessoa à mesa
do café com o "Orpheu".
1956 Publica "Antes de Começar".
1959 Publica a peça "Deseja-se
Mulher", escrita em 1928. Concebe cartões de tapeçarias para
o Hotel Ritz.
1960 Publica "Assim Fala Geometria - Almada
Negreiros Reconstruiu a Obra-Prima da Pintura Primitiva Portuguesa
na Capela do Fundador do Mosteiro da Batalha", numa série de
entrevistas ao "Diário de Notícias".
1961 Conclui as decorações da Cidade Universitária
de Lisboa.
1962 Realiza a conferência "Poesia e Criação",
publicada no "Diário de Notícias" em 8 de Novembro.
1965 Publica "Orpheu 1915-1965".
1969 Conclui o painel "Começar" na
Fundação Calouste Culbenkian. Conclui os frescos da Faculdade de
Ciências da Universidade de Coimbra.
1970 Morre em Lisboa, a 15 de Junho. |
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ALMADA,
PORTUGUÊS COM MESTRE
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|
Por
VITOR SILVA TAVARES [Jornal O Público]
Sábado,
26 de Janeiro de 2002
Certo fim de tarde, Bento de Jesus Caraça dispõe-se
ao ritual de um dedo de conversa à porta da Brasileira do Chiado. Os
amigos vêem-no chegar radioso, iluminado - coisa rara num homem com
tantas horas de aulas no Quelhas das Económicas. lnquirem da euforia.
E Bento Caraça: "Sabem, venho do atelier do Almada. Estive lá a
tarde inteira. Nunca ouvi tanta asneira na minha vida, mas nunca
passei uma tarde tão encantadora."
Si non è vero, è bene trovato.
Nem dá para imaginar o teor das
"asneiras" de um esotérico (manipulador de mitos, símbolos,
alegorias) face a um matemático - para mais, e presumivelmente, pouco
dado a pitagóricas especulações. Porém todavia - matéria de
encantamento - exprimiu Caraça o melhor que se pode exprimir da
poesia ou, por extensão natural, de toda a arte: se não serve para
encantar (lúdica ou convulsivamente), então o que é que anda cá a
fazer?
Auto-retratando-se com palavras, Almada incluiu
estas de Braque: "A Arte é feita para perturbar, a Ciência
assegura." Não precisaria de bengala, ele que em diálogo com
Fernando Amado já tivera ocasião de dizer "O artista conhece e
não sabe", repetindo, em síntese redutora, o que escrevera no
"Prefácio ao Livro de Qualquer Poeta": "O saber é
pouca coisa para quem conhece. O saber desencanta o mistério. O
conhecimento vive cara a cara com o mistério."
Este primado da arte como conhecimento (e deste
como "dianteira" sobre os saberes), atravessa todo o longo,
eclético, plural percurso de Almada Negreiros: ao vanguardista que
junto a Santa-Rita e Amadeo vinca o "fazer diferente" do
primeiro modernismo português (Pessoa e Sá-Carneiro são casos atípicos,
circunstanciais de modo) corresponde, em final de vida biológica, o
mesmo do painel-testamento riscado na pedra que se mostra no átrio da
Gulbenkian. Se bem entendido fosse, ninguém, à cabeça Azeredo
Perdigão, poderia exigir a Almada o repetir-se: já lá iam os painéis
de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, com suas arquitraves
geometrizantes ao serviço das figuras (como em algum do melhor
neo-realismo), agora era a hora de outro salto - e Almada deu-o: à síntese,
à súmula, ao arquétipo da geometria e do número, do sinal e do
ponto, chamou-lhes, simplesmente, "Começar" - também para
que não subsistissem académicas confusões sobre abstraccionismos
geométricos "a la" Mondrian ou Malevitch. "Começar",
pois, e sempre: não se conhece melhor definição para vanguarda.
... Que pressupõe rectaguarda. Por exemplo, e para
alguns: rectaguarda ideológica.
Ainda não há assim tanto tempo como isso
(Novembro de 1996), Álvaro Cunhal-ensaísta (in "A arte, o
artista e a sociedade", álbum natalício da Ed. Caminho) chegou
e disse: "Falando das artes plásticas e da saga modernista dos
anos 30 em Portugal, ninguém deve ter hoje dificuldade em reconhecer
o valor estético dos desenhos de Almada Negreiros por se tratar de um
defensor militante do fascismo (sublinhado nosso). Certo que mais
adiante reconhece igualmente "valor estético" ao
"impressionante choque plástico da girafa em fogo de Dali",
porém agora em contraponto com as "concepções, critérios e
sensibilidades embotadas por ideias feitas". Ponto de exclamação
do tamanho da légua da Póvoa em vertical. Nem valeria a pena
desembrulhar tal trapalhada (Almada "defensor militante" do
fascismo - por via de selos e cartazes ? - e o franquista e pró-nazi
Avida Dollars branqueado pela "estética") se as palavras de
Cunhal-ensaísta não viessem, como vêm, persistir num equívoco
ainda hoje recorrente se bem que boleado pela grosa liberal, seja, o
de confundir, misturar, expressão artística com idealismo ideológico
e assim ferretear "fascista" algum daquele pessoal das artes
e ofícios que prestou serviço, trabalho, na arrancada do Estado Novo
- desse Estado Novo que até foi, e só foi, "modernista"
enquanto o Ferro, editor de "Orpheu", teve influência.
Algum. Mas não todo, porque também entre a gente colaborante se
contaram "progressistas", logo, e por tal, isentos de
mancha. Poupem-nos nomes.
À luz crepuscular deste maniqueísmo teríamos então
- se de contrária conveniência - como "antifascistas" já
agora Pessoa e... Almada, que lá tiveram ocasião de alfinetar o
ditador em verso e caricatura. Terreno minado este - que não leva a
lado algum em termos de propriedade, densidade, relevância do
trabalho artístico. Está bem de ver que o fulcro da questão assenta
no fosso cavado entre quem defendia (ou defende) o primado ideológico
sobre a concepção artística (Jdanov, Goebbels), com os lindos
resultados que se conhecem, e quem, não "embotado por ideias
feitas", não isenta a arte - como não isenta a vida - de relações,
conflituosas as mais das vezes, com o seu tempo histórico mas a
querem livre de constrangimentos conceptuais, fora ou dentro das
pessoais opções políticas - caso hajam. "A sociedade só tem
que ver com todos, não tem nada de cheirar com cada um"
("Nome de Guerra", 1925). Será necessário sublinhar que a
opção política - esta, sim, militante - de Almada se resume à
afirmação de que "se não for por arte não serei de outro
modo"? O último capítulo de "Nome de Guerra" tem por
título "Finalmente o protagonista toma o partido das
estrelas".
Em 1980, num longo e suculento bate-papo com Helena
Vaz da Silva que veio a surgir impresso (ed. António Ramos), Júlio
Pomar saiu-se com esta: "Hoje costumo dizer que houve dois homens
no Portugal próximo-passado que de Portugal sabiam melhor que ninguém
e que sem os perceber não há Portugal (Lisboa?) que se perceba: um
chamava-se António de Oliveira Salazar e reinou o mais longo reinado
da história (que aprendíamos por reinados), outro José de Almada
Negreiros e reina ainda no personagem a-cultural que elaborou. Esses
foram dos poucos que conheceram Portugal na carne e por dentro."
Tiro certeiro e matéria fecunda para encartados.
Pondo de lado o Manholas, que enquanto tal conhecia de ginjeira a
maralha conterrânea (e de aí o ror de anos no poleiro) como não
"ver" Portugal, como não "ler" Portugal
("par coeur") na obra de Almada que por aí se estende? No
desenho, na pintura, a concretização do pacto sagrado a carecada com
Amadeo e Santa-Rita em 1917 e que consistia, não por menos, em trazer
à hora europeia, cosmopolita, futurista-e-tudo a pintura portuguesa
do "Ecce Homo" e dos Painéis atribuídos a Nuno Gonçalves.
Na poesia, no romance, nos manifestos, nas conferências, nos ensaios
(agora em fase de publicação sistemática e rigorosa), a língua
"espontânea", salgada, donairosa, inventiva, hiperbólica,
que vinha de Gil Vicente e Fernão Lopes e chegava até ele para ele a
inventar outra vez e ficar novíssima em folha e toda dele, pessoal
e... popular. Logo, com mestres.
Nem por sombras retirar vírgula de importância ao
estudo fundamental de José-Augusto França "Almada Negreiros, o
Português sem Mestre": acentue-se o "Português",
compreenda-se que o "sem Mestre" vai no sentido de quem sabe
o que sabe sem recurso a cartilhas e professores, mas leia-se o
(relativo e nem por isso original) reparo à luz dessa entidade, dessa
"unidade na diversidade" (José Mattoso) que percorre o arco
da história e se chama povo, povinho, arraia miúda, homens bons -
seu imaginário, sua gesta sofrida, sua mestiçagem cultural
necessariamente universalista (em erudito, herdeira de gregos e
renascentistas), sua empírica sabedoria, suas falas, sua língua
movente. Toda a obra de Almada comprova a herança que ele escolheu
recebida às alturas de mito (o "povo real" tem dias) - e é
pilar de Tradição, matriz e força motriz.
Bem no viu Lima de Freitas quando escreveu:
"Os intelectuais imaginavam-se demasiado sabedores para ser seus
discípulos, a juventude à procura de guerras santas não se
interessava pela sua paz rigorosa; porém os homens simples do povo
que conheceram o artista, ainda que incapazes de segui-lo
intelectualmente, conheciam estar na presença de 'alguém'".
Almada sofria, irradiando uma luz secreta dos olhos desmesurados. (E
anotava: "Farei tudo para que se respeite em toda a parte o
português mas, pelo menos, na sua própria terra." ) (in
"Almada e o Número", Arcádia, 1977).
Ah, o português! E que português obrigava a
"respeito" quem dedilhara irónica amargura ao escrever
(1931) "É fado nosso / é nacional / não há portugueses / há
Portugal"?
... Isso é o que nós, antes de adivinhá-lo,
gostaríamos de saber. Talvez aquele - é uma esperança - que ouse
brandir a colher de pau (resistir é preciso) como defesa do último
reduto caracterizador frente ao caterpillar do Supermercado Global.
Agora que deixou de ser possível a um português
querer ser espanhol por causa dos Dantas - "o fado nosso"
rasura Portugal do mapa e preenche com dez milhões de proto-cadáveres
consumidores - restará, em jeito de corolário, colocar dois pontos:
"Os palermas que não percebem nada da vida são piores que os
malandros" - Almada Negreiros, poeta português, universal-em-espírito.
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DESALMADAMENTE
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Por
HERBERTO HELDER [Jornal O Público]
Sábado,
26 de Janeiro de 2002
Num
período de despropósitos juvenis, anos 50, período profusamente
pessoano, alcancei o Almada para saber coisas do outro, o Pessoa,
como era ou fazia, como dizia e quando. O Pessoa ouvia-me com muita
atenção. Assim rápido, em cheio, inverso, deslocando o enredo
para os lados convenientes, Almada mostrava-me o que era preciso:
encontrar o sítio próprio para o dizer próprio. Esta atenção, a
do dizer que põe e dispõe, era a maior das atenções, maior que a
de quem ouvia. Ouvir, sim, pode ouvir-se com atenção restrita,
flutuante; mas a atenção de dizer tem de ser imensa. E foi através
desta atenção que ele descobriu que havia um erro no nome de Mário
Cesariny de Vasconcelos. Disse-lhe: O seu nome certo é Mário
Cesariny. Daí em diante os livros apareceram assinados Mário
Cesariny. E num dia realmente nominal, um dia de guerra, durante uma
daquelas suas efervescentes acções teatrais, o dito e o movido
porventura sobre o tema: número de ouro, pintar o sete - Almada
estendeu na minha direcção todo o braço direito: O seu nome está
bem. Parece que, sem o saber, eu pintara uma espécie de pequeno
sete. Ah não, não esperassem - e nós na altura tivemos a boa atenção
de não esperar - que ele se calasse. Até ao fim esteve a começar
a palavra: pintada, escrita, movida, falada. Quando uma tarde, nas
colinas de Campolide, fez uma fogueira de muitos papéis, houve
perplexidades, consternações, alarmes. Tirem-lhe os papéis da mão,
vai queimá-los todos. Eu pensei que era o de Vasconcelos do Mário
Cesariny. Estavam a mais, a atenção intrépida levantara nas leves
colinas um fogo para os sobejos, um fogo longo e lustral. Significa
que furtivas distracções invadem continuamente a atenção. Por
isso, a atenção está sempre a começar, distribui as fogueiras. O
implacável investimento nos papéis chamava a atenção para as
colinas, aí onde a Lisboa da época principiava a ser excêntrica.
Era uma razão radical, a das colinas iluminadas. Nesse lugar, um
lugar de poder, Almada encontrara o ponto exacto na trama dos
pontos, o centro, para nele pôr o pé, Anteu recebendo as forças
de Deméter, a materna - e então fazer tudo: acender os fogos,
descobrir os alfabetos, pintar o sete. Eu cá por mim acho que ele
trabalhou os dias de modo a não deixar nada a mais nem a menos,
quero eu dizer que, à parte o efémero e o eterno de cada um,
Almada está completo. E temos aqui a fotografia que não foi
tirada: o corpo atento a tomar conta do espaço, atrás os lumes de
Campolide. De que irredutível forma recebia ele a terra, com que
atenção de corpo e pensamento? Recebia-a sem descanso, entre papel
e fogo, pintando o sete com vinte e três letras de alfabeto - dois
mais três somam cinco - 5 -, número da criação. O segredo dos números
(o sete entra no cinco, ou o cinco apodera-se do sete - ora pois: a
atenção votara-se às uniões de acto, de contacto, de facto),
Almada sabia-o todo, a este segredo. Eu julgo que a expressão dos números
respeita aos ritmos do mundo. É tão imediato, tão funcional, que
a simplicidade popular logo o capta e formula consumadamente: pintar
o sete. E a ciência 5, essa, conhecia-se pelos dedos da mão e pela
figura do corpo: pernas e braços abertos, a cabeça em cima do
tronco, tudo ligado para demonstrar uma estrela de cinco pontas - o
belo pentagrama como está em Leonardo. Mas o que se chama
simplicidade, levou Almada a vida inteira a aprendê-la, irrevocável
atenção, escreve e queima, começa, oh vigília!, sempre, sempre,
até à morte. Olha-se agora: morrer era ainda pintar o sete. De que
atenção se precisa para morrer? Não se começa por aí? Por lançar
a atenção da vida sobre a atenção da morte? Morre-se da mesma
atenção de que se vive. Vem no sete pintado, está lá para ser
lido indefinidamente. Nunca acaba de começar, esta presença.
Lembro-me de um poema voltado para a morte - A um poeta que morreu
-, de que vi algumas versões manuscritas a lápis. Múltiplas atenções
da vida dirigidas à morte. Vou aos livros para confirmar, e reparo
que há um único poema com esse título directo. Ou ninguém
entendeu nada, ou o acaso, também ele, tem as suas colinas de
Campolide. Arde nelas o que sobejou. A obra está limpa, o homem está
limpo. Deve ser isso.
(Texto publicado no mais recente número da
revista "A Phala", dedicado a Almada Negreiros)
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