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IN MEMORIAM JOSÉ MINDLIN
- 8 de Setembro 1914/ 28 Fevereiro 2010
"José Mindlin foi um gigante da
cultura brasileira. Como todo grande homem, deixa um grande
legado, que é a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, o
resultado de uma vida dedicada aos livros, que por sua
generosidade hoje é um patrimônio de todos os brasileiros."
Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo
"Mindlin era um emblema do
livro, tinha com ele uma relação orgânica. Lembro com saudade o
dia em que estivemos juntos, com Evanildo Bechara, na
inauguração do Museu da Língua, em São Paulo, e eu lhe fiz o
convite para ingressar na Academia. Vamos sentir muito a sua
falta." Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira
de Letras
José Ephim Mindlin nasceu em São Paulo em 8
de setembro de 1914. Formou-se em Direito em 1936, pela
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
"Advogou até 1950, quando foi
um dos fundadores e presidente da empresa Metal Leve S/A,
empresa pioneira em pesquisa e desenvolvimento tecnológico
próprio no seu campo de atuação. Em sua atividade empresarial
desenvolveu grande esforço em prol do avanço tecnológico
brasileiro e no processo de exportação de produtos manufaturados
brasileiros.
Mindlin foi dono de uma das
mais importantes bibliotecas privadas do país, que começou a
formar aos 13 anos e, em 2006, doou cerca de 45 mil volumes,
entre coleções e folhetos, para a Brasiliana USP, no campus da
universidade, em São Paulo. [via Folha de São Paulo]" |
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Paixão
e perdição
A relação dos homens com os livros, em particular a
dos bibliófilos, aqueles que por eles se apaixonam, passa por três
estágios. Primeiro, os homens pensam que conseguirão ler um número
de livros maior do que de fato é possível. Num segundo estágio,
consequência imediata do primeiro, passam a desejar ter em mãos
o maior número possível de obras dos autores de quem gostam. Num
terceiro momento, já siderados, surgem o interesse pelas
primeiras edições, geralmente raras, e a atração pelo livro
como objeto de arte. Esta última fase é definida pelo mais célebre
bibliófilo brasileiro, o empresário paulista José Mindlin,
como perdição. "Quando se chega a esse estágio, aquele que
pensava em ser na vida apenas um leitor metódico está
irremediavelmente perdido", confessa Mindlin. A patologia –
doce patologia – está instalada em definitivo. Essa tese é
defendida logo na abertura de Uma vida entre livros –
reencontros com o tempo (Edusp-Companhia das Letras, 214 págs.
R$ 42), texto confessional e ao mesmo tempo uma espécie discreta
de autobiografia intelectual, em que o bibliófilo conta a história
de sua paixão pela literatura.
Uma vida entre livros é uma obra
desavergonhadamente derramada, sincera, até um pouco exagerada às
vezes, como se passa quando se confessa uma paixão. Nele, Mindlin
deixa de lado a vida mais crua do mundo empresarial e se dedica a
entregar aos leitores, sem nenhuma pose de literato, pequenos
tesouros íntimos. José Mindlin é, pode-se afirmar, o grande
amante dos livros no Brasil. Sua biblioteca particular em São
Paulo, ele mesmo estima, tem hoje 30 mil volumes, dos quais dez
mil são raros e dois mil, raríssimos. Mindlin começou a comprar
livros aos 13 anos. Nessa idade, ele já tinha lido obras como a História
das Religiões, de Salomon Reinach, e as Letras e
narrativas, de Alexandre Herculano. Desde 1927, lá se vão 70
anos, o empresário tem o hábito de frequentar sebos. Uma única
regra o guiou na construção de sua esplêndida coleção, o
prazer da leitura. "O que não gosto, e raramente acontece,
é de ler por obrigação", diz. Mesmo diante daqueles títulos
raros que sempre desejou e nunca conseguiu comprar, é o prazer, e
não a cobiça, que o move. Ainda há muitos desejos
insatisfeitos. Um deles é adquirir a primeira edição de Cultura
e opulência do Brasil, de Antonil, publicada em 1711. Chegou
a tê-la um dia nas mãos, mas não conseguiu comprá-la.
O empresário ensina que a mais importante qualidade de um
bibliófilo
não é a fortuna, ou a erudição, mas a paciência. Ele relata,
para os que duvidarem, a difícil história que viveu com a primeira
edição de O Guarany, de José de Alencar, de 1857. O livro
– que é hoje um dos tesouros de sua biblioteca – foi oferecido
a amigos do empresário, nos anos 60, por um grego, que pedia por
ele algo como US$ 1.000. Para desespero de Mindlin, que só veio a
saber da oferta depois, nenhum dos amigos se interessou. Dez anos
depois, a primeira edição da obra apareceu no catálogo de um leilão
de raridades na Inglaterra. Ele fez a encomenda a um livreiro
londrino, que acabou deixando o livro escapar porque o achou caro
demais. Em 1977, Mindlin foi a um leilão de livros raros em
Paris e
lá soube que O Guarany estava disponível. Na viagem de
volta, já com seu tesouro no colo, pelo qual pagou muito mais do
que o preço original, Mindlin pegou no sono. Ao desembarcar, não
se deu conta de que deixara o livro caído no tapete do avião. A
Air France o achou, três dias depois, em Buenos Aires. Foi preciso
esperar mais alguns dias até o volume chegar, são e salvo, a seu
destino definitivo.
No final Mindlin ainda elenca seus autores preferidos, entre eles
Balzac, Tolstói, Cervantes, Sterne e Virginia Woolf. A experiência
o leva a dar bons conselhos. Em matéria de livros, garante, cada um
deve ser capaz de fazer suas próprias escolhas. O leitor deve se
permitir passar de Machado a Astérix ou de Shakespeare a
Agatha
Chirstie. O importante é o prazer da leitura. Tanto que resume seus
sentimentos com uma frase: "Num mundo em que o livro deixasse
de existir, eu não gostaria de viver."
"Paixão e perdição" - Texto de
José Castello, para ISTO É, 12/11/97
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O
guardião de relíquias
José
Mindlin, o maior bibliófilo do país, expõe ao público sua coleção
de gravuras
Michelangelo, além de genial, era um ingrato - ao menos com o
papa Júlio II, o mecenas responsável pela encomenda dos afrescos
que adornam o teto da Capela Sistina. No século 16, houve entre
seus contemporâneos quem reconhecesse o semblante do papa entre
as infelizes criaturas que expiavam culpas no Juízo Final, na
mesma Sistina. Antes e depois disso, muitos mecenas fizeram por
merecer melhor recompensa. É o caso, para ficar num exemplo próximo
a nós, do ex-empresário José Mindlin, promotor de mais de duas
dezenas de manifestações culturais, principalmente livros, e
amigo de gente graúda no meio artístico. Foram tantas as
gravuras e matrizes com que artistas agradecidos lhe presentearam
que, com muitas outras adquiridas por ele ao longo de 84 anos de
vida, deu para montar a exposição Os Colecionadores - 1998, com
cerca de 750 peças de 67 autores diferentes. E ainda sobrou quase
outro tanto.
Entre modesto e franco, Mindlin avisa que o acervo não chega a
ser propriamente uma coleção, embora inclua trabalhos dos
principais nomes do país no gênero: Lasar Segall, Oswaldo Goeldi,
Lívio Abramo, Fayga Ostrower e Maria Bonomi, entre outros. Não
chega, porém, a formar um "todo coerente", como diz
Mindlin, ao contrário de seu outro tesouro - a biblioteca. Aos
livros, o ex-dono da Metal Leve e o maior bibliófilo do país
destina duas alas de sua casa, em São Paulo, além de dois imóveis
vizinhos inteiros. Suas estantes acomodam cerca de 26 mil títulos,
dos quais 10 mil em edições raras, datadas desde o século 15.
Ausente da mostra Os Colecionadores estará, por ser estranha ao
tema e ao mundo da gravura, a obra talvez mais reveladora da
personalidade de Mindlin. Permanecerá em lugar nobre de uma
estante na sala principal da biblioteca, guardada por anjos e
santos barrocos que espreitam das paredes, ao lado de telas de
Tarsila, Segall e de uma madonna peruana. De encadernação
austera, ela leva na lombada o nome de Guita Kauffmann, não por
acaso o nome de solteira da senhora Mindlin. Ao toque adestrado do
marido, uma parte do que seria a capa desliza e deixa à mostra um
engenhoso mecanismo, concebido por ele, dotado de pés basculantes
e travas. Em instantes transforma-se em um descanso para pés. Foi
um presente, nos anos 30, do então estudante da Faculdade de
Direito do Largo São Francisco à colega, namorada e futura
esposa, queixosa de sua baixa estatura, que a deixava com os pés
no ar quando se sentava à carteira.
O episódio antecipava alguns dos atributos que esse filho de
imigrantes russos iria lapidar no futuro, como criatividade, espírito
empreendedor, determinação e arrojo, além da obsessão por
livros. Da impetuosidade, Guita tivera prova ao pisar pela
primeira vez na faculdade, como caloura. Tão logo chegou, os
veteranos passaram a assediá-la na tentativa de conquistar sua
adesão para um dos partidos políticos da época. Testemunha da
cena, Mindlin tomou a frente e lançou seu mel, dizendo-se o
melhor partido que a jovem poderia encontrar. A liga combinou.
Desde então, ela tem sido sua parceira incondicional, até na
paixão pelos livros - a ponto de tornar-se a encadernadora
oficial da casa - e pela arte. Com freqüência, foi graças a seu
incentivo que ele resolveu desembolsar pequenas fortunas para ter
alguma relíquia impressa na estante.
Formar uma biblioteca como a de Mindlin é obra de uma vida
inteira e resultado de muito conhecimento, paciência e esforço,
sem falar em dinheiro. A pedra fundamental dessa Alexandria dos trópicos
foi lançada quando ele tinha 13 anos e comprou o Discurso sobre a
História Universal, de Jacques Bossuet, em edição portuguesa do
século 18. Mas foi só no ano seguinte que a comichão de
colecionador se apossou dele, despertada pela História do Brasil,
de Frei Vicente do Salvador, presenteada por uma tia. Sobre ela,
edificou-se a maior brasiliana conhecida - mais completa até que
a da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, atesta
Pedro Correa do
Lago, um dos principais livreiros do país.
O conjunto inclui desde manuscritos dos Sermões do
Padre Vieira a
edições originais de relatos das primeiras viagens de cunho
científico pelo Brasil, como a de Hans Staden; das cartas de
dom
Manuel ao papa aos originais revistos de Grande Sertão: Veredas e
Sagarana, de Guimarães Rosa, e de dezenas de grandes obras da
literatura brasileira. Mais prático do que relacionar uma a uma,
dizer que faltam apenas duas obras importantes na brasiliana dá a
medida de sua abrangência: História da Província de Santa Cruz,
de Pero de Magalhães, e Cultura e Opulência do Brasil, de
Antonil. Esta, em edição de 1711, de uma família francesa
radicada no Rio de Janeiro e disposta a vendê-la, chegou a ser
manuseada por Mindlin. Mas, por influência de um antiquário que
intermediava o negócio, foi parar em outras mãos. Seus antigos
donos teriam recebido US$ 3 mil pelo livro. Mindlin afirma que
teria pagado dez vezes mais.
Em todo caso, ele não perde o sono pelas lacunas. Mas também não
espera que uma raridade lhe caia no colo. No ano passado,
informado de um colecionador uruguaio interessado em vender um
lote enorme de documentos originais sobre a Província Cisplatina,
foi até Montevidéu e voltou de lá carregando 96 quilos de papéis
sobre o Brasil. Teve de emprestar duas malas de nosso corpo diplomático
- as duas que levara de casa se mostraram insuficientes. A
documentação só agora terminou de ser tombada por uma
professora, Cristina Antunes, braço direito de Mindlin há dez
anos.
Viajante contumaz, ele organiza seus périplos segundo as conveniências
da biblioteca. Em 1973, por exemplo, convidado a participar das
comemorações do 25o aniversário da criação de Israel, ele
introduziu no roteiro uma escala na Suíça ao descobrir a existência
de um manuscrito jesuíta sobre a Bahia do século 17. Ao
desembarcar com ele na bagagem em Israel, despertou a atenção de
uma agente alfandegária. Intrigada, quis saber do visitante o
conteúdo dos papéis e, após ouvir uma explicação minuciosa, não
resistiu à tentação de perguntar: "O senhor sempre faz
essas anotações quando viaja?"
Foi a primeira e última vez que Mindlin, um judeu, esteve em
Israel. Não que ele seja anti-sionista. Pelo contrário, acha
importantíssima a acolhida dada por Israel aos judeus perseguidos
em outras partes do mundo. Mas também não concorda com a tese de
subordinar a Israel aqueles que escolheram viver fora de lá. Além
do que é um agnóstico assumido e rejeita os dogmas religiosos do
judaísmo, embora se sinta ligado ao povo hebraico por laços
culturais. Por isso, é visto com reservas pela ala mais ortodoxa
da comunidade judaica no Brasil.
A biografia de Mindlin indica que ele não tem medo de cara feia.
Aos 84 anos, também se dá ao direito de dizer o que pensa sem se
preocupar com melindres, embora com delicadeza. Dias atrás, por
exemplo, recebeu em sua casa a visita de uma jovem editora. Logo
na chegada, ela lhe entregou o exemplar número 1 do primeiro
livro que publicava. Mindlin, que não a conhecia, leu a dedicatória
e pediu licença para observar: não fica bem colocar o carimbo
"Cortesia do editor" em livro oferecido, uma regra no
Brasil. A jovem, parece, aprendeu a lição.
Títulos recentes, com cheiro de best-seller, têm escassa chance
de inclusão no rol de 80 a 100 livros que, em média, Mindlin lê
por ano, incluindo-se as releituras. Só o colossal Em Busca do
Tempo Perdido, de Proust, por exemplo, ele devorou cinco vezes, em
edição original. Os clássicos, diga-se, formam outro sólido
pilar de sua biblioteca, forrada com Petrarcas, Camões,
Joyces
etc. Natural, portanto, que não passe um só dia, quase, sem que
um pesquisador, jornalista ou editor percorra aquelas estantes em
busca de material para trabalhos pessoais. Mindlin fica feliz.
Como costuma dizer, ele é apenas o guardião do tesouro, e não o
seu dono.
"O guardião de relíquias"
- Texto de Nelson Letaif, para ÉPOCA
ONLINE
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José
Mindlin: O guardião dos livros
Uma
loucura mansa. É assim que o bibliófilo José Mindlin define sua
paixão pelos livros. Por amor a eles, é capaz de passar 20 anos
atrás de um exemplar raro, como aconteceu com a primeira edição
de O Guarany, de José de Alencar. A obsessão começou
quando era menino e hoje, aos 85 anos, está expressa numa imensa
biblioteca particular de mais de 30 mil volumes que não pára de
crescer. Tanto que o prédio construído especialmente para ela já
não basta. Mindlin aluga dois imóveis perto de sua casa para
abrigar os livros excedentes. Um terço dessa coleção gigantesca
é formada por obras raras, garimpadas em livreiros e sebos do mundo
inteiro, muitas vezes às custas de estratégias mirabolantes para
consegui-los. Há desde a primeira edição de Os Lusíadas,
de Luís de Camões, a manuscritos como o Livro das Horas, um
pergaminho de 1480. E também originais de livros como Olhai os
Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, com correções à mão
do autor. Tal é a amplitude da biblioteca de Mindlin, que o Museu
Lasar Segall, em São Paulo, vai inaugurar no próximo dia 3 de
outubro uma exposição dos 110 exemplares mais representativos
da coleção.
José
Mindlin nunca se considerou proprietário dos livros que tem. Para
ele, uma biblioteca é sinônimo de preservação de cultura, que
não tem dono. Aliás, o bibliófilo acaba de assinar um acordo com
a Universidade de São Paulo, doando a parte mais extensa de seu
acervo, batizada por ele de "Brasiliana", que reúne
apenas livros sobre o Brasil. O contrato prevê a construção de
uma biblioteca de 10 mil metros quadrados para abrigar o tesouro em
pleno campus. Assim, estudantes e pesquisadores terão acesso a
preciosidades como a História Geral do Brazil, de Varnhagen,
publicada em 1876, ou as Viagens de Hans Staden, de 1557.
Mesmo diante de tal gesto, Mindlin faz questão de salientar que a
biblioteca nunca pertenceu só a ele, mas também a Guita, sua
mulher, que é restauradora de livros.
Apesar
dos anos de garimpagem, Mindlin não se define como um colecionador,
mas, antes de tudo, um leitor inveterado. "Estou sempre com um
livro na mão", conta. "Sou um leitor que passou a
bibliófilo." A leitura foi a origem de sua vasta coleção,
com os livros sendo adquiridos um a um. Mas como Mindlin
interessa-se pelos mais variados assuntos — ficção, poesia,
teatro, biografia, ensaio, relato de viagem, para ficar em alguns
—, a biblioteca cresceu "indisciplinadamente", como ele
gosta de frisar. A busca de obras raras surgiu tempos depois.
A
passagem de leitor para bibliófilo se deu quase imperceptivelmente,
mas logo se transformou num caminho sem volta. Ele explica que o
ponto inicial desse processo pode ser um escritor de quem se gosta:
"O desejo de ter todos os livros deste autor já é o começo
de uma coleção", argumenta. "Aos poucos, vai surgindo o
interesse pelas primeiras edições, as encadernações, as
tipologias, ou seja, a atração do livro como objeto. Chega-se
então à busca de raridades. Nesse ponto, o leitor já está
irremediavel mente perdido. Foi o que aconteceu comigo. Dei-me conta
de que era uma doença incurável, mas, ao contrário das outras,
só me fazia bem. Por isso, nunca me preocupei."
Achados
e perdidos
O primeiro livro raro adquirido por Mindlin foi Discurso
sobre a História Universal, de Bossuet, de 1740, quando ele era
ainda um garoto de 13 anos. A experiência de bibliófilo,
entretanto, acabou mostrando que não bastava um livro ser antigo
para ser raro. Outros fatores contam também, como o conteúdo da
obra, o valor histórico, a tradução, as ilustrações e até
curiosidades como dedicatórias e erros tipográficos (...).
"Há livros modernos mais difíceis de encontrar do que muitas
obras de séculos atrás", garante Mindlin. Mas encontrar um
exemplar raro, depois de anos de busca incessante, é a maior
glória de um bibliófilo, que precisa lançar mão de alguns
subterfúgios para ser bem-sucedido. Uma regra básica é nunca
demonstrar emoção diante do livreiro. Isso pode fazer com que o
preço de um exemplar chegue às alturas. Outra estratégia é
sempre pechinchar. Se bem que, em alguns casos, "a gente vende
um imóvel e compra o livro", prega Mindlin. "Dinheiro a
gente recupera, mas um livro raro, não."
Há muitas
dessas histórias por trás das estantes da vasta biblioteca. Entre
as mais curiosas está a aquisição da primeira edição de O
Guarany, de José de Alencar, publicada em 1857, pela qual o
bibliófilo esperou 17 anos. A primeira notícia que teve sobre a
obra foi na década de 60, quando um grego, no Rio de Janeiro,
chegou a oferecê-la por mil dólares. Mindlin soube disso tarde
demais. O grego já havia desaparecido. Persistente, passou dez anos
atrás do exemplar, até que ele reapareceu num leilão na
Inglaterra. Mindlin, imediatamente, encarregou um livreiro amigo de
arrematá-lo. De novo, a sorte não ajudou. Quando o livro alcançou
60 libras, o amigo resolveu desistir, pensando que Mindlin achasse o
preço excessivo. Só em 1977, o bibliófilo conseguiu realizar o
seu sonho, adquirindo O Guarany em Paris, num leilão de livros
raros sobre o Brasil. Para isso, teve que travar um verdadeiro
embate com o grego, que, então, já pedia pelo livro muito mais do
que havia oferecido no Rio. Mas a proeza não termina aqui. Na volta
para o Brasil, Mindlin veio com a raridade no colo e acabou
perdendo-a no avião. Só três dias depois o livro reapareceu.
Tinha ido parar em Buenos Aires.
Apesar das
muitas façanhas com final feliz, Mindlin guarda algumas frustrações.
A maior delas foi não ter comprado a primeira edição de Cultura
e Opulência do Brasil, de Antonil, publicada em 1711, embora a
oportunidade tenha aparecido uma vez. Até hoje ele se arrepende
disso, pois nunca mais teve outra chance. "Há momentos que não
se pode hesitar", explica. "É melhor arrepender-se de ter
comprado, do que ter deixado de comprar." Outro velho sonho é
possuir um livro de Marcel Proust autografado ou com anotações do
próprio escritor. "Mas uma raridade dessas atinge preços tão
elevados que não tem cabimento pagar", pondera. "A gente
não pode ser escravo do livro a ponto de fazer grandes
loucuras." Depois de uma pequena pausa, Mindlin completa:
"Pequenas loucuras, sim".
"José Mindlin: O guardião dos livros" - Texto de
Cláudio Fragata Lopes, in Galileu/Globo
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Caso de amor
com os livros: José Mindlin
Quando, aos
13 anos, o empresário José Mindlin começou a comprar livros
em sebos de São Paulo, ele não imaginava o resultado da investida.
Setenta e cinco anos depois, Mindlin é considerado o maior
bibliófilo brasileiro, reunindo uma coleção com cerca de 29 mil
títulos, algo próximo a 45 mil volumes, muitos deles verdadeiras
raridades. "A leitura é que conduziu à formação da biblioteca",
conta. "Para mim, é uma compulsão patológica tanto a aquisição
quanto a leitura", afirma ele, que esteve na Capital na
semana passada participando de uma palestra promovida em conjunto
pelo curso de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC) e pelo Escritório do Livro.
Filho de pais russos, imigrados para o Brasil no começo do século
passado, advogado, fundador da Metal Leve (fabricante de autopeças),
repórter de "O Estado de S. Paulo" e ex-secretário de
Cultura do governo Paulo Egydio Martins, Mindlin
define as etapas do processo em que se estabelece a compulsão
patológica, o "verdadeiro vício", pelos livros. "Primeiro
se começa com as edições comuns. Depois vem o interesse pelo livro
bonito, com ilustrações e bem diagramados. A próxima é a busca das
primeiras edições de um determinado título. Passa-se, então, a
procurar exemplares autografados. A última etapa é a consciência da
raridade. E aí você está definitivamente perdido", afirma ele,
com um bom humor que é uma das suas características.
Até o ano passado, ele lia de
seis a oito livros por mês. Agora, com problemas de visão, precisa
recorrer a uma lupa, dificuldade que reduz um pouco este volume.
Mesmo assim, mantém uma pilha deles na cabeceira e um sempre próximo
à mão, que lhe permite ler "em uma soma de pequenos períodos".
"Minha preferência é por ficcão e crítica literária. Atualmente
estou lendo "A Mãe de sua Mãe e suas Filhas" (Editora Globo), de
Maria José Silveira", conta. A escolha dos títulos que vão
compor a biblioteca é totalmente intuitiva. "Quando eu vejo um
livro que me atrai, mesmo sem ter nenhuma referência, eu compro e
normalmente não me arrependo." Antes, somente eram adquiridos
aqueles que interessavam pessoalmente a Mindlin, sua mulher
ou filhos. Agora que a coleção virou referência, outra parte foi
agregada, com história natural e geografia, entre outros.
Consciente de que o acervo literário formado ao longo das quase oito
décadas não poderá ser refeito caso se disperse, Mindlin já
traçou planos para a biblioteca. A idéia é montar uma fundação de
direito privado, fazendo a doação da parte brasileira - cerca da
metade dos títulos. "A instalação será num prédio da Universidade de
São Paulo (USP), mas com o gerenciamento pela fundação num período
de 99 anos", detalha. Como há muitos livros raros, o acesso será
restrito a pesquisadores.
O intelectual admite que
manter uma biblioteca em casa é algo que dá prazer, mas argumenta
que "ter o livro não deveria ser a condição para se ler".
Para ele, é obrigação do governo — com a colaboração dos empresários
— a formação de bibliotecas, principalmente em escolas públicas de
ensino fundamental e médio. Com isso, estaria-se estimulando o
hábito principalmente entre as crianças. "O interesse cada vez maior
pela leitura também formará um grupo maior de patrocinadores. Quem
gosta de ler tem o prazer de que isso seja transmitido", ensina ele,
que é considerado um dos mais importantes mecenas brasileiro do
livro. "Eu tenho procurado sempre inocular o vírus da leitura e
do gosto pelos livros para um maior número de pessoas."
Esse incentivo é papel de
todos, já que a sociedade é um conjunto e não compartimentos
estanques, afirma Mindlin. Neste esforço, a escola representa
um dos fatores mais importantes, "mas tem que começar pelos
professores. Eles têm que ler e gostar para poder transmitir com
eficiência. Se não têm amor, dificilmente irão transmitir isto",
argumenta. E a leitura deve ser vista como fonte de prazer e não
como um compromisso curricular. "Ninguém gosta de fazer as coisas
por obrigação. O que a criança lê é mais ou menos irrelevante.
Adquirindo um hábito, a medida em que cresce, ela desenvolverá o
discernimento sobre a qualidade."
A respeito da qualidade da
literatura brasileira, ele diz que há bons autores e outros nem
tanto. Mesmo sem citar nomes, faz referência indireta a Paulo
Coelho, recém-empossado na Academia Brasileira de Letras (ABL):
"Há um escritor que está para a literatura assim como o bispo
Edir Macedo está para a religião", provoca. "Aquilo não é
literatura, mas não podemos generalizar, temos bons autores e há
edições populares bem acessíveis, com bons textos", afirma.
"Caso
de amor com os livros: José Mindlin" -
Texto de
Carla Pessotto
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Entrevista
de Mindlin a
Suza Machado (Extracto)
[Jornal "A Tarde" de 12/02/2005]
Suza
Machado - O bibliófilo José Mindlin e sua atuação como editor
são temas de duas publicações recentes - o livro/DVD José Mindlin,
Editor e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Já sua biblioteca é
tema do livro de Cristina Antunes, Memórias de uma Guardadora
de Livros. O que significa para o Sr. estas iniciativas?
José Mindlin - Os
livros de autoria de Cristina Antunes e o meu, editados como
"Memórias", podem mostrar como a formação de uma biblioteca não é um
bicho de sete cabeças. Foram escritos com prazer. Quanto ao livro
José Mindlin, Editor foi uma gentileza da Edusp quando completei os
primeiros 90 anos. Seria hipocrisia dizer que não me deram um prazer
especial. Meu trabalho como editor veio do desejo de tornar
conhecidas às gerações atuais obras importantes, especialmente do
Modernismo brasileiro que, por não serem tomadas a sério na época de
sua publicação, não se conservaram, tornando-se grandes raridades.
José Mindlin, Editor foi uma homenagem elogiosa, e uma fraqueza de
todos nós mortais é ficarmos contentes com o reconhecimento de
nosso trabalho e com elogios à nossa capacidade de realização.
Percorrendo as páginas desse livro, me dei conta de que eu mesmo não
me lembrava de ter proporcionado a publicação de tantas obras.
Espero, aliás, continuar essa atividade de editor bissexto ou meio
clandestino.
Suza
Machado - O que destaca nessas publicações? Que outras histórias
o bibliófilo José Mindlin ainda não contou?
José Mindlin - O que procurei destacar foi a importância
fundamental da leitura durante a vida. Em paralelo, procurei dar
idéia do prazer que a formação de uma biblioteca proporciona e os
requisitos para conseguir isto: conhecimento, perseverança, olhos
abertos para as oportunidades que se apresentam e... ter o destino a
seu lado, pois o acaso é um dos principais fatores do sucesso da
garimpagem. As histórias de garimpagem são inúmeras e assim mesmo já
contei um bom número delas. Isto não quer dizer que não possa um dia
publicar mais um livro com outras peripécias (...)
Suza
Machado - A transferência de grande parte de sua biblioteca para
um espaço público é um gesto de generosidade e uma grande
contribuição para a cultura brasileira. De que forma a iniciativa
privada pode também contribuir para melhorar o acesso ao livro e
incentivar a leitura?
José Mindlin - Nossa biblioteca foi formada sem o fetiche de
propriedade, e sim como forma de facilitar a leitores e
pesquisadores o conhecimento, além de assegurar a conservação do que
já se publicou. Conseguimos formar um conjunto de obras relacionadas
com estudos brasileiros, que seria uma pena
que se dispersasse. Daí a idéia de destinar este conjunto a uma
universidade que representasse uma segurança de perenidade. A gente
passa e os livros ficam. O que vamos fazer é algo que poderia ser
feito por muitos outros proprietários de bibliotecas (...)
Suza
Machado - Sua biblioteca tem um acervo destacado sobre o Brasil.
Que livros indicaria como indispensáveis para alguém que quisesse
ter um acervo mínimo sobre o tema e por que estas indicações?
José Mindlin - Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de
Holanda, História do Brasil, de Bóris Fausto, Capítulos de história
colonial, de Capistrano de Abreu, Evolução política do Brasil, de
Caio Prado Júnior, e outras obras desses autores. Indico esses
livros porque são estudos de grandes especialistas, que introduziram
uma visão nova na História brasileira, muito mais interpretativa do
que factual. Afinal a História não é feita apenas de fatos, nomes e
datas. É evidente, no entanto, que muitas outras obras seriam
necessárias, como por exemplo as de viajantes, que descrevem o País
e a evolução dos costumes. A Coleção Brasiliana, da Companhia
Editora Nacional, ou a Coleção de Documentos Brasileiros, da Editora
José Olympio, por si sós constituiriam uma biblioteca bastante boa.
Esta poderia ser iniciada com os autores que indiquei e ir sendo
formada gradualmente e através de um programa de leitura.
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José Mindlin:
Uma vida
entre pistões e livros (Extracto)
(...) Como
um bom romance, a vida de José Ephim Mindlin esconde uma
surpresa em cada página. "Virei empresário por acaso", disse a
ISTOÉ. Antes, aos 15 anos (nasceu a 8 de setembro de
1914, na capital paulista), foi contratado como repórter de O
Estado de S.Paulo e participou da Revolução de 1930. Como
era um dos poucos no jornal que falavam inglês, o dono de O Estado,
Júlio de Mesquita Filho, o encarregava de passar informações por
telefone aos revolucionários no Rio de Janeiro, driblando os
censores monoglotas.
O
jornalismo perdeu o talento de Mindlin quando ele entrou na
Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1932. Enquanto os
professores liam monótonas preleções, o jovem estudante sentava-se
ao fundo da classe para devorar a obra do francês Montaigne -
o amor pela leitura começou aos 13 anos, ao entrar num sebo pela
primeira vez. Nos primeiros dias de aula do quinto ano de curso,
cruzou nos corredores com uma caloura que vinha sendo assediada
pelos veteranos para entrar nos partidos políticos da época. Ele
tomou coragem: "Olha, tudo isso é uma bobagem, porque o melhor
partido sou eu!" O casamento com dona Guita aconteceu poucos
meses depois e completará 61 anos em dezembro (têm quatro filhos e
11 netos).
Formado,
ele atuou 15 anos como advogado. Durante o Estado Novo, defendeu
imigrantes europeus que tentavam ingressar no Brasil, fugindo da
Segunda Guerra, mas tinham sua entrada negada pelo governo. Em 1950,
alguns clientes o procuraram para redigir um contrato de sociedade
com uma fabricante alemã de pistões - em tempo: são peças
cilíndricas que "sugam" o combustível permitindo o funcionamento do
motor. Como os clientes desistiram do negócio, Mindlin não
perdeu a oportunidade e assumiu o compromisso. Juntou-se a outros
quatro empreendedores e fundou a Metal Leve - nome escolhido em
homenagem ao alumínio, matéria-prima do produto.
Começou com
50 funcionários. Não demorou até que Juscelino Kubitschek
chegasse à Presidência e, na esteira do desenvolvimento da indústria
automobilística, a Metal Leve se tornasse uma potência no setor de
autopeças. A sólida estrutura financeira, cujo segredo era evitar
endividamentos, permitiu a abertura de filiais no Exterior.
Presidindo a empresa, Mindlin chegou a empregar seis mil
pessoas. "Posso dizer, sem pretensão e água- benta, que ajudamos a
desenvolver o País. E sem tirar um tostão dos cofres públicos." A
prosperidade durou até o início do Plano Real, na década de 90,
quando o câmbio sobrevalorizado reduziu bruscamente as exportações e
abriu o mercado brasileiro para as autopeças importadas. Após três
anos amargando prejuízo, Mindlin vendeu suas ações em 1996.
"Do ponto de vista emocional, foi muito difícil. Mas, racionalmente,
deveria ter vendido antes."
Sempre com
um livro debaixo do braço, agradece a Deus - embora seja agnóstico -
ao ficar preso em congestionamento no trânsito, para poder devorar
bons romances. Acredita ter lido, em cálculo otimista, oito mil
volumes. "Gostaria de viver 300 anos, o que me permitiria ler de 25
a 30 mil livros." No fundo, Mindlin sabe que não é qualquer
um que chega aos 85 anos com tanta disposição. Todo dia caminha
quatro quilômetros no quintal da casa onde mora no Brooklin,
na zona sul de São Paulo. Dá 40 voltas no pátio de 100
metros. E se dá ao luxo de não evitar suas guloseimas preferidas:
chocolate, marzipã e bala de ovo. "Não tenho nenhuma pressa em me
separar da biblioteca", brinca. Em caso de surpresa, no entanto, já
adiantou aos filhos que gostaria de descansar em paz num túmulo que
tivesse o seguinte epitáfio: "José Mindlin - Fabricou pistões
a maior parte da vida sem saber o que eram." [in
ISTO É]
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Entrevista
de Mindlin ao
Jornal do BAN (Extracto)
Band
- Em seu livro o sr. cita Thomas Mann dizendo que deveria ser
proibida a leitura de bons livros, porque existem os ótimos. Então
eu queria que o sr. desse uma dica para os estudantes sobre como
eles podem discernir esses ótimos livros, sem ficar restrito aos
clássicos?
José Mindlin - Bem, no próprio livro eu digo que essa idéia é
inaplicável porque não existe um critério rigoroso para determinar
quais são os livros excelentes, quais são os bons, quais são os
regulares. Eu comecei a ler bastante cedo e a vida inteira continuei
lendo. Acho que a leitura é uma das melhores coisas que a gente tem
na vida, mas tem de ser num campo de liberdade intelectual – cada um
resolve o que acha melhor. O importante é adquirir o hábito da
leitura, não importa com quais livros, porque, depois de o hábito
estar enraizado, vem a seletividade por si mesma. E cada um vai
escolher se gosta de clássicos, de romances policiais – depende da
vontade de cada um. Não se pode dizer “Você tem de ler determinados
livros”. O máximo que se pode dizer é: “Eu achei esse livro muito
bom e acho que você teria prazer em lê-lo” ou então “Eu li esse
livro e achei que a leitura é uma perda de tempo, mas não é pecado
gostar”. Não pode haver um preconceito de ler só um determinado tipo
de livro. Para dar um exemplo extremo, uma pessoa pode gostar de ler
Os Sermões do Padre Vieira e de repente interromper essa leitura
para pegar um livro da Agatha Christie. Não vejo nada de mau nisso.
O importante é adquirir o hábito da leitura e ir apurando por si
mesmo a escolha do que ler (...)
Band
- Quando começou seu interesse pela leitura? E por exemplares raros?
José Mindlin - O Brasil era muito
diferente na minha infância, não tinha tantas opções. Eu tive a
chance de estudar francês, que ficou sendo minha segunda língua.
Primeiro, claro, a literatura infantil. Eu era leitor do Tico-tico,
que formou diversas gerações. Havia os livros da Condessa de Ségur.
Quando Monteiro Lobato surgiu, eu já era mais crescido. Então eu
comecei a freqüentar sebos, o que também é um hábito muito salutar,
porque nos põe em contato com coisas de outras épocas. E já aos 13
anos meu interesse por edições antigas começou, quando vi uma edição
francesa impressa em Coimbra em 1740, se não me engano, e fiquei
fascinado. Mais tarde aprendi que a idade do livro tem um
significado muito relativo. Há muito livro antigo que não vale nada,
e muito livro moderno que é excelente. Aos 15 anos lembro que
comprei um livro de poesias do Machado de Assis, com dedicatória
autógrafa dele. Essas coisas são apaixonantes e vão criando o
requinte da bibliofilia. Aprendi o valor das primeiras edições, mas
aprendi também que em alguns casos a primeira edição pode não ser a
mais importante, como em O Guarani, de José de Alencar. E o gosto
vai assim se tornando uma compulsão. Eu brinco dizendo que no meu
amor aos livros há um conteúdo patológico, mas é uma patologia que
faz sentir bem. E tem outra particularidade importante: é incurável.
Eu procuro, nos muitos contatos que tenho com a mocidade, inocular o
vírus do amor aos livros, porque uma vez inoculado está resolvido –
a pessoa não se livra mais. (...)
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BIBLIOGRAFIA
SOBRE O LIVRO NO BRASIL POR JOSÉ MINDLIN
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"Não
faço nada sem alegria", diz José Mindlin |
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O
famoso bibliófilo José Mindlin e a sua biblioteca (Foto de Ricardo
Giraldez) |
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Uma
vida entre livros
José Mindlin. Edição
- Companhia das Letras e Edusp, 232 p., 18 x 25,5
Repleto de ilustrações
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José Mindlin
- o "guardião do tesouro" |
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A
escolha de Mindlin
1.Machado
de Assis:
Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. "De
contrabando, os contos."
2.Graciliano Ramos: Vidas Secas e São Bernardo
3.José Lins do Rego:Menino de Engenho
4.Raul Pompéia: O Ateneu
5.Guimarães Rosa: Grande Sertão: Veredas. "Mas com
Sagarana e Corpo de Baile como preparação."
6.Erico Veríssimo: O Tempo e o Vento
7.José de Alencar: Cinco Minutos e A Viuvinha. "Têm
mais força que O Guarani."
8.Manuel Antonio de Almeida: Memórias de um Sargento de
Milícias
9.Mário de Andrade: Macunaíma
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"Memórias Esparsas de uma Biblioteca & Memórias de uma Guardadora de
Livros", de José Mindlin & Cristina Antunes (respectivamente),
Escritório do Livro, 2004. |
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"Kosmos - Rio
de Janeiro, , jan 1904, ano I, no.1
Revista que segundo, o bibliófilo José Mindlin é a mais bela revista
brasileira de todos os tempos. Entre os autores que contribuíram no seu primeiro número estavam
Olavo Bilac, Francisco Braga e Artur Azevedo." |
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